Empreiteira pagou dívida de campanha de Dilma

02/03/2016 - A Andrade Gutierrez, segunda maior empreiteira do País, afirma ter pago despesas com fornecedores da campanha eleitoral da presidente Dilma Rousseff em 2010. O pagamento, ilícito, teria sido feito por meio de um contrato fictício de prestação de serviço.
A revelação foi feita no acordo para a delação premiada de 11 executivos da Andrade, segundo a reportagem apurou, e é a primeira citação direta de irregularidade apurada pela Lava-Jato que envolve campanha da presidente da República.
O fornecedor conhecido até aqui, segundo pessoas que tiveram acesso aos detalhes do acordo no Ministério Público Federal, é a agência de comunicação Pepper – que trabalhou para Dilma em 2010. O pagamento foi feito, segundo delatores, a pedido de um dos coordenadores da campanha do PT.
Para dar um aspecto de regularidade ao pagamento em sua contabilidade, a Andrade produziu um contrato fictício com a Pepper, segundo o relato. O valor superava os R$ 5 milhões à época. Em 2010, a empreiteira fez três doações oficiais para o comitê financeiro da campanha de Dilma, entre agosto e outubro, que somam R$ 5,1 milhões. Já a campanha de Dilma declarou gastos de R$ 6,4 milhões com a agência Pepper.
De acordo com ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), esse tipo de triangulação representa caixa dois. Como se trata da campanha de 2010, na Justiça Eleitoral não haverá implicações diretas em caso de comprovação do crime, como perda do mandato, porque o governo se encerrou em 2014. Cabem, contudo, ainda ações criminais sobre o episódio.

Outras revelações
Além de informações sobre a campanha de 2010, o roteiro acertado com os procuradores inclui revelações sobre irregularidades cometidas nas obras da usina nuclear de Angra 3, da hidrelétrica de Belo Monte, na Petrobras e em três estádios da Copa do Mundo (Arena Amazonas, em Manaus, Maracanã, no Rio, e Mané Garrincha, em Brasília).
Segundo o que os delatores acertaram com o Ministério Público, a propina nesses casos iria para o PT e para o PMDB na forma clássica apurada pela Lava-Jato: doações eleitorais legais, mas com a origem dos recursos em acordos irregulares em obras públicas.
O acordo entre a Andrade Gutierrez e o Ministério Público envolve o pagamento, pela construtora, de uma multa de R$ 1 bilhão e determina que 11 executivos que trabalham ou trabalharam na empreiteira contem o que sabiam sobre o pagamento de propina pela empresa.

Repercussão no governo
As acusações dos executivos da Andrade foram recebidas com preocupação pelo Planalto, que considerou mais um fator de desgaste à imagem da presidente e que empurra novamente o governo federal para o centro das investigações da Polícia Federal.
Os auxiliares e assessores da petista reconhecem que as suspeitas serão exploradas pelos partidos de oposição para defender o impeachment, mas avaliam que não terão impacto direto no processo de cassação da chapa presidencial na Justiça Eleitoral, já que analisa supostas irregularidades na campanha de 2014, não de 2010.
O líder do governo no Senado, Humberto Costa (PT-PE), afirmou não acreditar que a revelação da Andrade Gutierrez terá impacto imediato no mandato de Dilma Rousseff.
O senador afirma que, como as informações se referem ao primeiro mandato da presidente da República, ela não poderia ser punida no atual período. “Pode ter um impacto político”, disse.
Questionado sobre o conteúdo das delações, o líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), não quis responder diretamente. Ele apenas afirmou que a imprensa deveria fazer questionamentos sobre a campanha de Aécio Neves (PSDB-MG), candidato em 2014.

Redação Web
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