Esquema de propina da Odebrecht funciona desde o governo Sarney

26/03/2016 - A Operação Xepa, 26ª fase da Lava Jato mostrou a existência de um departamento de propina na Odebrecht, que teria movimentado altas somas de dinheiro ilícito para agentes públicos e políticos. No entanto, documentos apontam que o esquema existe desde ogoverno José Sarney (1985-1990). Com informações do portal UOL.
Os procedimentos utilizados eram bem semelhantes aos apontados pelos investigadores da Lava Jato e envolvem 516 pessoas, entre elas estão senadores, ex-ministros, deputados, governadores e integrantes de partidos como PSDB, PMDB e PFL (atual DEM).
Cerca de 400 documentos internos foram adquiridos pelo UOL. Eles estavam sob posse de uma ex-funcionária da Odebrecht. A maioria, datada de 1988, detalha remessas e propinas a diversos políticos.
Assim como na lista divulgada pela Lava Jato na terça-feira (22), codinomes também eram utilizados para os receptores dos pagamentos de propina. Os valores eram calculados a partir de porcentagens em cima de valores de obras realizadas pela empreiteira.  A Odebrecht afirmou "que não se manifestará sobre o tema".

Livro de códigos
Em um documento intitulado "Livro de Códigos", há uma lista chamada de "Relação de Parceiros" detalhando codinomes de políticos, agentes públicos e empresários relacionados à Odebrecht. 
O atual líder do PSDB na Câmara dos Deputados, Antônio Imbassahy (BA), aparece com o codinome "Almofadinha". Ele estaria relacionado à obra da barragem de Pedra do Cavalo, na Bahia. Imbassahy presidiu a estatal Desenvale (Companhia do Vale do Paraguaçu) nos anos 1980, quando era filiado ao PFL. A Desenvale foi responsável pela obra de Pedra do Cavalo.
"Arvir" é o codinome do tucano Arthur Virgílio, atual prefeito de Manaus, no "Livro de Códigos". Do PMDB, estão presentes o senador Jáder Barbalho, intitulado "Whisky" e o ex-ministro de Minas e Energia Edison Lobão com o codinome "Sonlo". Já os filhos do ex-presidente José Sarney,Fernando e José Filho, aparecem como "Filhão" e "Filhote"; Roseana Sarney é a "princesa".
Além deles, também são citados o ex-presidente Fernando Collor de Mello, retratado pelo codinome "Mel", relacionado a um emissário submarino construido na década de 1980, quando ele era governador de Alagoas; e o atual presidente do Tribunal de Contas da União, Aroldo Cedraz ("Toldo"), ligado à obra da adutora do Sesal, onde ele ocupava à época os cargos de presidente da Companhia de Engenharia Rural da Bahia e de secretário de Recursos Hídricos e Irrigação da Bahia. 

'Esquema sempre existiu'
A ex-funcionária da empresa Maria Lúcia Tavares, que delatou o esquema atual da Lava Jato, afirmou que "o esquema naquela época era mais ou menos como esse divulgado essa semana, só não tão organizado assim. Esse esquema de propina, de fraudar licitações, sempre existiu na empresa. Aliás em todas as grandes, o esquema sempre foi esse", disse.
"Eram porcentagens de valores das obras. Era feito o fechamento, e determinava um percentual. A partir daí ocorria o superfaturamento e o pagamento. Tudo isso era feito através de transações bancárias e dinheiro. É bem semelhante ao que foi divulgado na Lava Jato, mas hoje tem um departamento específico para isso. Naquela época era feito em nível de gerência, mas acredito que tenha funcionado em diretoria e presidência também", completa Conceição.
"Quando fui demitida e peguei os pertences pessoais, esses documentos estavam no meio da caixa, acabaram vindo junto. As pessoas recomendaram que me desfizesse, mas achei bom guardar. É preciso traçar um paralelo, mostrar que isso é antigo. Alguns desses crimes podem até estar prescritos, mas isso tudo mostra que o esquema vem de bem antes. A saída é reforma, não é demonizar o PT", explica a ex-funcionária.

Outro Lado
O deputado federal Antonio Imbassahy afirmou que é "um despropósito" a menção ao seu nome na "Relação de Parceiros" da Odebrecht. "Como homem público sempre tive uma relação baseada na decência com a Odebrecht e com qualquer empresa."
O prefeito de Manaus, Artur Virgílio Neto, enviou nota na qual afirma: "não fui e não sou parceiro de empresas e, em meio a esse charco todo, sempre me mantive nos limites da seriedade pública."
O advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, negou que seus clientes, o senador Edison Lobão (PMDB-MA) e a ex-governadora Roseana Sarney, tenham cometido qualquer ato ilícito.
"O Brasil passa por um momento de criminalização da política. Isto é muito grave. Vamos afastar da atividade política, que é essencial para qualquer país, as pessoas de bem. E a delação passou a ser prova para incriminar, sem sequer investigar. Um país punitivo não serve para a democracia. A palavra do delator normalmente é falsa e estranhamente seletiva."
A reportagem entrou em contato com o assessor de imprensa de Collor, que informou não ter conseguido contato com o gabinete dele em Brasília. A reportagem ligou para os telefones do senador Jader Barbalho (PMDB-PA) e de seus assessores, mas ninguém atendeu aos telefonemas. A assessoria do TCU não respondeu aos questionamentos da reportagem. A reportagem não conseguiu contato com Fernando Sarney e José Sarney Filho.
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