População cearense ainda adoece por falta de rede de esgoto

05/04/2016 - Com uma cobertura atual de 40,11% de esgotamento sanitário, cearenses ainda adoecem, em pleno ano de 2016, pela falta ou não utilização do serviço, considerado básico à qualquer população.
Entre as principais enfermidades sujeitas a quem vive neste cenário, segundo especialistas, estão as doenças do tipo diarreicas. E se o déficit da rede por si só já preocupa, em época de grandes chuvas, quando o esgoto a céu aberto se mistura a enchentes, por exemplo, os riscos podem passar despercebidos, porém se fazem ainda maiores.
As principais vítimas são as crianças. Dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DataSus) revelam que cerca de 32,2% das internações por diarreia no Ceará em 2013 foram de crianças menores que cinco anos. Ao todo, 8.506 pessoas foram internadas pelo mesmo problema naquele ano, em 116 municípios, com destaque para Russas, 631 casos, seguido de Sobral, 466, e Lavras da Mangabeira, 449. A Capital teve o total de 384 casos.
O professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Aldo Angelo Moreira Lima, explica que a quantidade de micróbios ingeridos pela contaminação do ambiente decorrente da falta de saneamento básico, assim como pela contaminação da água e dos alimentos, mesmo não causando a diarreia, pode levar a uma enteropatia tropical, doença que lesa o intestino e causa desnutrição.
Conforme destaca, as consequências são maiores em crianças de zero a dois anos de idade em virtude da fase de desenvolvimento. “Esse fenômeno de lesão silenciosa tende a aumentar as infecções intestinais especialmente em crianças nessa faixa etária, que pode inviabilizar sua formação e seu desenvolvimento cerebral. Se você não forma adequadamente o cérebro da criança até os dois anos ela fica com um déficit cognitivo extremamente irreparável para o resto da vida, já que em termos de conectividade, a ligação dos neurônios acontece nessa fase, além da parte nutricional e do impacto físico que pode influenciar em todo um desenvolvimento adequado para uma qualidade de vida”, aponta.
Casos graves, segundo o especialista, podem levar a óbito principalmente pela desidratação e a deficiência nutricional também aumenta os riscos do surgimento de doenças cardiovasculares associadas à obesidade.
A melhor prevenção para quem está inserido nessa realidade socioeconômica, ainda conforme Aldo Monteiro, é prover água potável para consumo e manejo dos alimentos, além da viabilização de saneamento adequado. “A educação também é muito importante, pois só assim você consegue entender esse processo. Saneamento hoje é algo prioritário e que deveria ser de responsabilidade primária de qualquer comunidade que queira evoluir com qualidade de vida”, comenta o especialista

Dengue
A falta de esgotamento sanitário também contribui para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor do vírus zika, febre chikungunya e a dengue. Esta, por exemplo, é a grande preocupação do auxiliar de almoxarifado Roberto Santos, 38, morador de uma rua na Lagoa Redonda sem esgotamento sanitário disponível. “Sem esgoto e com chuva é o que mais preocupa todos nós aqui. Estamos no aguardo do serviço”, diz.
A Capital possui, segundo a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), 57,10% de cobertura de rede de esgoto. Até 2018, segundo a Companhia, há a previsão de investimento de R$ 325,3 milhões em obras de esgotamento sanitário e abastecimento de água, incluindo intervenções que aguardam autorização do Ministério das Cidades para iniciar. Uma vez concluídas, a Cagece informa a expansão da cobertura de esgoto na Capital para cerca de 65,10%.

Diário do Nordeste
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