Detentos fogem por andaimes de obra em presídio já usado antes de inauguração

Após rebeliões registradas em presídios do Ceará, detentos foram transferidos para presídios ainda em fase de conclusão em Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza. Um agente penitenciário denunciou ao Tribuna do Ceará que presos fugiram, na madrugada de quarta-feira (25), da Casa de Privação Provisória de Liberdade (CPPL) 5 por meio de andaimes montados para as obras na própria unidade.
“Transferiram os presos para a unidade que nem foi inaugurada. Colocaram só dois agentes, nem guariteiro tem, nem nada. Fui fazer uma ronda e descobri uma rota de fuga. Localizei vários andaimes, escada e corda. Os caras estavam descendo fazendo rapel. É como se o Estado estivesse falando assim: ‘Foge, vai embora’”, revela.
A Secretaria de Justiça do Ceará (Sejus) confirmou fugas no Centro de Execução Penal e Integração Social, complexo que abrange as CPPLs 5 e 6, mas o número de fugitivos só será informado após finalizada a contagem. “As maiores fugas do sistema penitenciário estão acontecendo diariamente. Não está sendo divulgado não. Tem muito bandido no meio da rua já, bandido de todo tipo”, diz o agente.
Ainda de acordo com a fonte, algumas fugas foram evitadas; mas, pelo menos 50 presos teriam escapado. “Fui fazer uma ronda, peguei armamentos, quando avistei um preso em cima do teto. Sai correndo atrás dele e dei disparo de 12 [escopeta calibre 12]. Os presos estão tudo indo embora”, conclui.
Com as fugas, a população de Itaitinga virou refém do medo. Escolas e comércios fecharam as portas, na tarde de quarta-feira. Informações de que homens estariam invadindo as casas para roubar roupas e alimentos assustaram quem vive no município cercado por unidades prisionais. “Dizem que eles usam calção laranja. Eles estão soltos, e a gente fica preso dentro de casa. A cidade está um caos, porque somos o fundo dos presídios”, diz uma moradora.
Conforme a Sejus, nenhum conflito foi registrado desde a última segunda-feira (23). Em nota, a assessoria afirma que “as unidades prisionais da Região Metropolitana começam a se estabilizar”.
Durante a manhã desta quarta-feira, familiares de internos das Casas de Privação Provisória de Liberdade II, III e IV, e Unidade Prisional Agente Luciano Andrade Lima, em Itaitinga, e do Centro de Triagem, em Caucaia, entregaram malotes com alimentos, colchões, roupas e itens de higiene pessoal para os internos.

CNJ se pronuncia
Diante dos episódios ocorridos desde o último final de semana do Ceará, a Secretaria de Comunicação do Conselho Nacional de Justiça informa que o presidente do CNJ, ministro Ricardo Lewandowski, determinou ao Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Execução de Medidas Socioeducativas (DMF) a busca de informações junto ao Judiciário e ao governo do Estado sobre a situação atual e os encaminhamentos feitos até o momento, a fim de organizar, se for o caso, uma estratégia de ação mais abrangente.
“O Conselho Nacional de Justiça está atento aos desdobramentos no Ceará e enviará todos os esforços para buscar uma solução conjunta para os tristes episódios vividos no sistema penitenciário local”, diz nota enviada.

Crise carcerária no Ceará
Rebeliões simultâneas ocorreram em, pelo menos, oito presídios do Ceará, na manhã e início da tarde de sábado (21). As rebeliões começaram após deflagração de greve do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Ceará, na sexta-feira (20). Com a paralisação, foram suspensas as visitas do fim de semana, prejudicando a alimentação dos detentos, o que gerou a revolta.
Em decisão liminar proferida na sexta, a greve foi declarada ilegal por decisão da desembargadora Terese Neumann, apontando crime de desobediência por parte do sindicato dos agentes prisionais, fato que também será investigado pelo Ministério Público. No domingo (22), o governador Camilo Santana solicitou o apoio da Força Nacional de Segurança para conter a crise no sistema prisional.

Destruição
O Governo do Estado confirma que as CPPLs II, III e IV estão completamente destruídas em termos de infraestrutura prisional. A Unidade Prisional de Caucaia, conhecida popularmente como Carrapicho, foi parcialmente danificada, enquanto o Instituto Penal Feminino registrou somente um pequeno motim. Em nota, a Procuradoria Geral da Justiça informou que vai investigar os motins, as mortes, a paralisação dos agentes prisionais e os prejuízos.

Tribuna do Ceará
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