Grupo de escaladoras ativistas confessa autoria da faixa na pedra da galinha choca

Fim do mistério: a gigantesca faixa colocada no início da tarde do último domingo (29) na pedra da galinha choca, cartão postal de Quixadá, com a frase “30 filhos do patriarcado”, foi autoria de um grupo de mulheres escaladoras e militantes que defendem uma intervenção radical na cultura de estupro.
O grupo de ativistas quixadaenses “Galinha por elas”, esclareceu a polêmica em sua página no Facebook, que já contava com 300 curtidas, até a publicação desta matéria. “Não foram 30 contra uma, foram 30 contra todas!, foi uma intervenção performática, efêmera e reversível. A ação foi uma resposta ao grito engasgado na nossa garganta após a notícia do estupro de uma mulher no Rio de Janeiro por 30 homens que ainda se vangloriavam disso nas mídias sociais. Estuprar uma mulher é estuprar todas elas!”, diz a postagem.

Na página, as militantes ainda revelaram segredos de bastidores da ação. “A faixa [tinha] 30m; As letras tinham, cada uma, pelo menos 1m de altura e consumiu 3,6 litros de tinta acrílica; Levamos mais de 6 horas para finalizar a faixa; Pesava pelo menos 20 kg, além da madeira e cordas da ancoragem, do equipamento de escalada, água, várias cordas e comida; Foi ancorada várias vezes com madeira e corda [nas] fissuras existentes na rocha. Mas o vento desprendeu tudo mais rápido do que imaginávamos”.

População se confundiu
Divulgada na última segunda (30), a declaração provocou curiosidade nas redes sociais e muitos já relacionavam o sentido da mensagem tivesse alguma ligação com o caso da garota do Rio de Janeiro que teria sido abusada sexualmente por cerca de 33 homens.
Devido a um campeonato de vôo livre que acontecia na cidade no final de semana, moradores do entorno chegaram a pensar que se tratavam de um dos competidores que havia ficado preso ao monólito. Polícia e Corpo de Bombeiros chegaram a ser acionados.

Leia, na íntegra, a nota publicada pelo grupo:
POR TODAS ELAS – INTERVENÇÃO POLÍTICA NA PEDRA DA GALINHA CHOCA
No último domingo, 29 de maio de 2016, um pequeno, porém bravo e engajado grupo de escaladoras e escaladores do Ceará fizeram uma intervenção artística e política na Pedra da Galinha Choca, ícone do Sertão Central do Estado do Ceará. A famosa rocha representa uma mãe que cuida e prepara suas filhas e filhos para o mundo, mas quando abre as asas, será que o mundo está preparado para acolher essa ninhada?
Galinha por Elas: não foram 30 contra uma, foram 30 contra todas!, foi uma intervenção performática, efêmera e reversível: uma faixa de 30 metros de altura foi fixada utilizando os cristais, fissuras e reentrâncias existentes na própria Galinha Choca. A ação foi uma resposta ao grito engasgado na nossa garganta após a notícia do estupro de uma mulher no Rio de Janeiro por 30 homens que ainda se vangloriavam disso nas mídias sociais. Estuprar uma mulher é estuprar todas elas!
Sim, o estupro é abominável, abala o corpo e esmigalha o espírito. Em 2014, foram mais de 50.300 registros de mulheres estupradas no país – e ainda tem as que não prestaram queixa. Isso é revoltante, não há dúvidas. Junto com o feminicídio (quase 2,5 mil mulheres foram assassinadas em 2013 por parceiros e ex-parceiros), são os piores pesadelos das mulheres.
Gostaríamos, todavia, de lembrar que o estupro, assim como o assassinato de mulheres por ciúmes e possessividade, não é feito por homens monstruosos ou que estão fora das suas perfeitas faculdades mentais. Infelizmente, tanto quanto os pequenos atos cotidianos, os estupradores são moldados pela sociedade machista na qual todos estamos inseridos, por isso dizemos: os 30 estupradores são filhos saudáveis do patriarcado.
O patriarcado é um conjunto de valores que organiza a sociedade e cria condições para beneficiar o homem em detrimento da mulher. Parece um conceito atrasado para os nossos dias, nos quais as mulheres desempenham tantos papéis importantes na sociedade. Mas, infelizmente, é o que as mulheres vivenciam cotidianamente, com maior ou menor intensidade, e de forma direta, como a submissão diante de um pai duro, a possessividade de um marido ciumento ou os mais horrendos estupros e assassinatos.
Mas acreditamos que a forma indireta do patriarcado se manifestar no nosso cotidiano é, talvez, a mais complicada de ser enfrentada por ser muito difícil de ser reconhecida. E ela vai se entranhando na nossa cultura sem sequer permitir que homens e mulheres percebam as facetas no machismo de cada dia na nossa fala, na nossa música, na nossa piada de bar, no nosso esporte, na nossa casa.
As maneiras veladas de submeter e de tratar as mulheres como objetos de desejo alheios à sua própria vontade são pequenas contribuições no processo de ‘formação’ de estupradores e assassinos de mulheres. E para piorar, muitos ainda julgam denúncias de machismo como bobagem e exagero de feministas.
Por isso gritamos:
Não foi contra uma, foi contra todas!
Abaixo o patriarcado!
Machistas não passarão!
Por todas elas

Diário Sertão Central
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