Mestres da Cultura têm dificuldades para repassar saberes

Embora revele avanços em relação a outros estados no sentido de reconhecer os mestres da cultura tradicional e popular, o Ceará ainda enfrenta problemas para garantir a transmissão de saberes e mesmo a salvaguarda desse patrimônio imaterial. Isso porque, apesar de o governo estadual reconhecer e pagar mensalmente o subsídio de 60 mestres, o programa esbarra na carência de estrutura e políticas que passem pelo fomento da produção, pela educação e mesmo pelo intercâmbio cultural.
Na tarde desta segunda-feira (30), mestres da cultura, gestores e pesquisadores participaram de audiência pública na Assembleia Legislativa com o intuito de debater propostas para aprimorar o programa. Na ocasião, o secretário da Cultura do Ceará, Fabiano Piúba, anunciou que o Governo deverá iniciar ações efetivas tanto para ampliar o número de mestres de 60 para 80 até 2018 quanto para revisar a legislação para ampliar o contato deles com equipamentos de educação formal e informal.
Nesse sentido, Fabiano Piúba lembrou que a Universidade Estadual do Ceará (Uece) já aprovou a resolução que visa conceder aos mestres da cultura do Ceará o título de doutor por notório saber. "Isso tem um sentido notório e acadêmico, mas também prático. O mestre vai poder, por exemplo, dar uma palestra ou aula espetáculo e ser remunerado como um doutor da universidade", afirmou.
Outra iniciativa anunciada pelo secretário foi a de aproximar os mestres das escolas. Sobre essa questão, a pesquisadora Olga Paiva ponderou que a transmissão de saberes em um local fora do cotidiano do mestre pode provocar perdas. A casa e os ateliês dos mestres são lugares únicos. Tenho uma preocupação com as perdas caso eles sejam apenas retirados de seus contextos", salientou. Na audiência, foi sugerida a criação de uma estrutura mínima para que os mestres possam fazer oficinas em suas próprias comunidades.
Os mestres da cultura José Stênio Diniz e Cacique Pequena participaram nas discussões. Eles ressaltaram a necessidade de o Estado ir além do subsídio e integrar políticas que garantam tanto a manutenção dos trabalhos que desenvolvem quanto o intercâmbio cultural e o repasse para outras comunidades. "Vamos botar os mestres para trabalhar, para repassar os saberes. A gente não quer só uma bolsa. A nossa valorização vem com esse trabalho", defende Stênio.
Cacique Pequena também reclamou de um suposto atraso no pagamento dos subsídios dos mestres. Segundo o secretário Fabiano Piúba, não há atrasos recorrentes de pagamento, mas uma ausência de sistemática institucional que permita o pagamento em um dia específico. O gestor afirmou que fez um acordo com a Secretaria da Fazenda para que esses subsídios, no valor de um salário mínimo para cada mestre, sejam pagos sempre na primeira quarta-feira do mês.

Diário do Nordeste
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