Proibição das visitas nos presídios foi orientada por presidente do sindicato

O presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Ceará, Valdemiro Barbosa, determinou à categoria que familiares de presos do sistema penitenciário do Ceará fossem impedidos de visitar os parentes. A determinação do líder sindical correu as redes sociais no último sábado, 21, dia de início da greve dos agentes que desencadeou a onda de rebeliões em pelo menos seis presídios da Região Metropolitana de Fortaleza.
No vídeo de 58 segundos, gravado dentro de um veículo Chevrolet, o presidente do sindicato “parabeniza” os grevistas “pelo grande movimento” que está se desenrolando e pede: “Vamos impedir a entrada das visitantes”. E continua. “Porque, só assim, o governo do Estado atenderá nossas reivindicações. Estamos no aguardo do contato do governo. Queria mais uma vez parabenizar todas as companheiras e companheiros. Um abraço a todos e até a vitória sempre”, encerra com o punho cerrado.


Após o caos gerado nas penitenciárias cearenses, com anúncio no domingo (22/5) de pelo menos oito execuções, Valdemiro Barbosa se viu obrigado a convocar uma coletiva para responder o secretário da Justiça do Ceará, Hélio Leitão. Leitão o responsabilizava pelo problema que saiu do controle e resultou numa carnificina.
Na segunda-feira, 23, durante uma coletiva à imprensa, Valdemiro Barbosa mudou o discurso do sábado e acusou a Polícia Militar de proibir a entrada das visitas nos presídios. Em um vídeo divulgado pelo CETV - 1ª Edição, da TV Verdes Mares, desta quarta-feira, 25, Valdomiro Barbosa reafirma: “Quem impediu a entrada das visitantes foi o Batalhão de Choque, que foi convocado pelo Governo do Estado. Eles colocaram o Batalhão de Choque nos acessos dos complexos e dentro das penitenciárias e as visitantes chegaram e foram impedidas por ele (BPChoque). Inclusive, houve confronto no Complexo Itaitinga II de visitantes com o Batalhão de Choque”.
No sábado, Valdemiro Barbosa ressaltava no vídeo postado nas redes sociais o feito da categoria de agentes penitenciários do Ceará de ter conseguido paralisar “dezenas de cadeias públicas no Estado. Toda a Região Metropolitana paralisada, tumulto em todas as cadeias de pequeno e grande porte” do sistema penitenciário cearense.
Valdemiro Barbosa pediu que os agentes em greve mantivessem “a pegada”, pois “estamos aguardando uma resposta do governo, uma proposta do governo que realmente venha contemplar nossa categoria. Queria pedir a vocês que mantenham a pegada, vamos à luta, vamos continuar com nossas atividades paralisadas”, afirma no vídeo.
Nesta quarta-feira (25), a Secretaria da Justiça do Ceará (Sejus) divulgou nota atualizando o nome e o número de presos executados a tiros, ferro ou fogo, no interior dos presídios cearenses por causa das rebeliões do último fim de semana. A quantidade de assassinados saltou de 14 para 18, podendo chegar a mais. 
O POVO entrou em contato com Valdemiro Barbosa via dois números de telefones celulares. Ligou de 12h às 13 horas e de 15h06min às 15h16min para o líder sindical e deixou dois recados na caixa postal, com nome do repórter e o telefone, pedindo retorno. A assessoria de imprensa do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Ceará informou que Barbosa estava viajando pelo interior do Estado. 

Advogada do sindicato diz que Valdemiro não comemorou “rebelião”
A advogada do Sindicato dos Agentes Penitenciário do Ceará (Sindasp/CE), Ninon Thauchmann, afirmou que a greve foi avisada à Secretaria da Justiça do Ceará (Sejus) com 72 horas de antecedência. A categoria, como prevê a legislação, garantiria os serviços essenciais nas penitenciárias. De acordo com Ninon, como seria reduzido o número de agentes de plantão, as visitas não poderiam ser feitas devido a grande quantidade de visitantes para os cerca de 8 mil presos.
Ninon Thauchmann relatou uma série de tentativas do sindicato em negociar as pautas da categoria com o Governo do Estado. “Em nenhum momento se comemorou o que aconteceu lá (nos presídios). O presidente partiu do princípio de que era uma conquista da categoria fazer com que o Estado sentasse para conversar. Ninguém vai comemorar uma situação daquela. Ele (Valdemiro Barbosa) é uma pessoa séria”, defendeu. 
A advogada do Sindasp lembrou que, no tempo da campanha politica, o então candidato a governador do Ceará, Camilo Santana (PT), apontou a melhoria da situação dos agentes penitenciários como uma das ações prioritárias de um futuro governo. “Seria uma revisão da gratificação da atividade especial de risco. É, talvez, a profissão mais perigosa que existe”, disse.
De acordo com Ninon Thauchmann, ele se comprometeu a melhorar a segurança nos presídios e a segurança para os que trabalham nos complexos penitenciários. “Ainda que fossem feitas várias reuniões com o secretario de Justiça, a palavra final é do governador. O doutor Hélio (Leitão) é uma pessoa comprometida, mas de braços curtos. As coisas atingiram uma situação tal de insegurança, que o presídio do Carrapicho (Caucaia) foi totalmente quebrado por dentro”, avaliou a advogada.

O conteúdo do vídeo do sábado. Dia do início da rebelião (21/5/2016):
“Companheiros e companheiras, agentes e servidores do sistema penitenciário do Ceará, primeiramente, parabenizar nossa categoria pelo grande movimento que está fazendo. Dezenas de cadeias públicas paralisadas no Estado. Toda Região Metropolitana paralisada, tumulto em todas as cadeias de pequeno e grande porte do Estado. E dizer pra vocês: estamos aguardando uma resposta do governo, uma proposta do governo que realmente venha contemplar nossa categoria. Queria pedir a vocês que mantenham a pegada, vamos à luta, vamos continuar com nossas atividades paralisadas. Vamos impedir a entrada das visitantes. Porque, só assim, o governo do Estado atenderá nossas reivindicações. Estamos no aguardo do contato governo. Queria mais uma vez parabenizar todas as companheiras e companheiros. Um abraço a todos e até a vitória sempre”.
(Cerra o punho e encerra o discurso. O vídeo dura 58 segundos e teria sido feito na manhã do último sábado. Em outro vídeo os agentes transportam grades de andaimes, madeiras e outros materiais em um corredor de um dos presídios. A maioria está com o rosto descoberto, dois ou três estão com as bala-clavas abaixadas, outro está de óculos e um de máscara branca de primeiro socorros).

O conteúdo do vídeo da coletiva (23/5/2016):
“Quem impediu a entrada das visitantes foi o Batalhão de Choque que foi convocado pelo Governo do Estado. Eles colocaram o Batalhão de Choque nos acessos dos complexos e dentro das penitenciárias e as visitantes chegaram e foram impedidas por ele. Inclusive houve confronto no Complexo Itaitinga II de visitantes com o Batalhão de Choque”. 
(Imagens do jornal CETV 1ª Edição, da TV Verdes Mares, desta quarta-feira, 25, sobre a coletiva dada à imprensa na última segunda-feira)

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