Os cuidados que faltam na hora de escolher o vice

Assistida em 2016, a cena parece até surreal: lado a lado, Dilma Rousseff e Michel Temer, recém-eleitos, sobem juntos a rampa do Planalto. Das mãos de Lula, a petista recebe a faixa presidencial enquanto o vice, paciente, observa de longe. Os dois se aproximam e erguem os braços em gesto histórico, que pouco remete às farpas e acusações mútuas em que se tornou, hoje, a relação entre a presidente afastada e seu vice.
Princípio vivo do imaginário popular, a máxima de que “não existe inimigo mais temível que um ex-amigo” encontra paralelo fiel na política brasileira. Seja no Planalto, Ceará ou em Santa Quitéria, a crônica do poder é rica em grandes adversários que surgiram de um vice. Em ano de eleição, o caso de Dilma e Temer é alerta para os cuidados – que deveriam existir – na hora de se arranjar colega de chapa.

Santa Quitéria
Em 2008, Chagas Mesquita (PSD) foi eleito prefeito, apadrinhado por Tomás Figueiredo (PMDB), mas acabou rompendo em agosto de 2010.
“O ex-prefeito {Tomás}, no início de minha gestão, queria me tratar como se eu fosse um boneco dele. Pra completar a situação, um dia eu me encontrei com dois policiais a paisana dentro da minha casa, eu não sou de briga, nem de confusão, mas não dava pra suportar, pois me senti humilhado e então resolvi dar um basta”, disse Chagas à época.


Já em 2012, eleitos em clima de amizade inabalável, a “lua de mel” entre o prefeito Fabiano Lobo (PDT) e o vice-prefeito Braguinha durou só 02 anos.
Em 2014, o vice rompeu com o gestor, aderindo ao grupo político do ex-prefeito Tomás Figueiredo (PMDB) e hoje cotado como provável vice na chapa majoritária.

"Papel figurativo"
“O vice (no Brasil) normalmente acaba tendo papel figurativo. Serve só para amarrar alianças para as eleições”, diz o cientista político Felipe Albuquerque, pesquisador da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Ele aponta que, com o vínculo frágil e a aproximação do vice ao poder, é natural o surgimento de rusgas por espaços entre aliados.
“O conflito é tão comum pela própria política de alianças feitas no Brasil. Alianças não ocorrem por convicções ideológicas, mas por interesses pragmáticos”, avalia a cientista política Nayara Macedo, doutoranda pela Universidade de Brasília. Ela afirma que o conflito poderia ser evitado com um vínculo político maior na coalizão.
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