Preso na máfia de resultados, cantor cearense diz que foi vítima do esquema

Preso por supostamente participar de esquema de manipulação de resultados de campeonatos de futebol no Brasil para beneficiar criminosos asiáticos em sites de apostas, o cantor cearense Carlos Eduardo Rabelo, nome artístico Edhu Rhabello, diz à reportagem que foi envolvido na trama injustamente por um dos integrantes do esquema e que nunca cometeu nenhum ato ilícito. Segundo ele, a oferta foi de US$ 20 mil (cerca de R$ 65 mil), que ele teria recusado.
Rabelo é empresário de jogadores e cantor de pagode em sua cidade, Maracanaú, no Ceará, e foi preso no último dia 7, quando a Polícia Civil de São Paulo deflagrou a operação Game Over. Ele prestou depoimento e foi solto dias depois, mas ainda pode ser denunciado por formação de quadrilha e manipulação de jogos. Segundo o promotor Paulo Castilho, caso sejam considerados culpados os presos podem cumprir penas superiores a dez anos.
"Fui uma vítima, fui aliciado. Sou um cara do bem, empresário bem sucedido. Sou muito conhecido na minha cidade, nunca tinha entrado numa DP [Delegacia de Polícia]. É doído, constrangedor", diz.
Empresário do jogador Gil Mineiro, atualmente no Náutico, ele conta que procurava um clube para o atleta quando foi abordado por um dos membros do esquema.
"No começo do ano, o Náutico colocou o Gil em uma lista de jogadores disponíveis para empréstimo. Saí ligando e cheguei ao Thiago Coutinho, do Rio de Janeiro, que me disse que tentaria colocá-lo no Vasco, no Botafogo.
Ele me disse primeiro que era empresário de jogadores, mas depois revelou o esquema, perguntou se eu não trabalharia com ele buscando times em dificuldades financeiras para perderem jogos."
"Ele me disse que os apostadores eram estrangeiros, não especificou [que eram asiáticos; a polícia diz que o esquema tem sede na Indonésia, na Malásia e na China]. Eu não tenho preconceito, mas quero distância de clube pequeno: você vai lidar com jogadores e treinadores incapacitados e diretores analfabetos. Não vão me agregar em nada", explica.
Segundo Rabelo, ele teve contatos telefônicos com Coutinho apenas em janeiro deste ano. Ele conta que após as primeiras abordagens, quando recebeu a oferta de US$ 20 mil, ficou pensativo, mas depois teria recusado.
"É um valor que tenta, não é? Disse para ele que iria pensar, como um ser humano normal. Mas graças a Deus não preciso disso. Ganho mais que isso. Tenho 80 funcionários nas minhas empresas, sou bem sucedido".
Rabelo ainda conta que fez sucesso na década passada como músico em sua cidade. Aos policiais que fizeram as oitivas, ele contou que o hoje famoso Wesley Safadão participava da abertura de suas apresentações na época.
"Sou muito conhecido aqui. Quando o pagode mandava, em 2002, eu era a atração principal dos 'showmícios' [shows para promover políticos]. Na época, o Wesley, que era só uma criança e nem deve lembrar disso, dançava antes das minhas apresentações", confirma.
Por fim, ele afirma que não denunciou o esquema à polícia por medo.
"Aqui no Ceará, há um ditado que diz o seguinte, e desculpe o palavrão: quem tem c*, tem medo. Se eu não topei, se não me prejudicou, problema de quem vai se envolver. Eu não tive nada a ver com isso".
O modo de abordagem descrito por Rabelo é compatível com o que outros presos descreveram à Polícia, mas se referindo a Anderson Rodrigues, considerado o chefe da quadrilha no Brasil. Ele abordava empresários de jogadores em busca de clubes em dificuldades financeiras e então os dispensava para fazer negociações diretas com dirigentes, técnicos ou jogadores visando manipular resultados.
Até o momento, a polícia prendeu nove suspeitos de envolvimento com a manipulação de resultados em partidas das Séries A2 e A3 do Paulista e divisões inferiores do Nordeste. Segundo a reportagem apurou, há também investigação em andamento em relação a tentativas de interferir em partidas da Série D do Brasileiro.

Diário do Nordeste
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