Dilma chora, chama Temer de usurpador e diz que respeito às urnas está em jogo

Em duro discurso contra ex-aliados, Dilma Rousseff chamou o governo do presidente em exercício Michel Temer de usurpador, afirmou que o que está em jogo no processo contra ela é o respeito às urnas e se emocionou ao exaltar as conquistas de seu mandato, na manhã desta segunda-feira (29), em seu depoimento de defesa do julgamento final do impeachment, realizado no plenário do Senado Federal.
A petista iniciou sua fala quase uma hora após o horário previsto, para as 9h, após chegar ao Congresso Nacional acompanhada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por ex-ministros de seu governo e pelo cantor e compositor Chico Buarque, uma das personalidades mais ferrenhas na defesa da continuidade da petista no governo federal. Ao chegar à Casa, ela foi ovacionada com gritos de "Dilma, guerreira, do povo brasileiro". 

"Hoje, mais uma vez ao serem feridos nas urnas setores da elite política e econômica, nos vemos diante do risco de ruptura democrática. Os padrões políticos dominantes no mundo repelem a violência explícita, mas agora é a violência moral, usando pretextos da Constituição para dar uma pretensa aparência de legitimidade para um governo que assume sem o amparo das urnas", atacou Dilma no discurso de 43 minutos de duração. 
"São pretextos para derrubar por meio de um impeachment sem crime de responsabilidade um governo legítimo. São pretextos para viabilizar um golpe na Constituição, que, se consumado, resultará na eleição indireta de um governo usurpador."

Retaliação de Cunha
No discurso, a presidente afastada voltou a enfatizar que o processo contra seu mandato só foi à frente como consequência de um gesto de vingança do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, pelo fato de o Partido dos Trabalhadores não ter concordado em votar contra seu processo de cassação na Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, e que a ação só deslanchou pelo desejo das "elites autoritárias de quererem o poder a qualquer preço", responsáveis por criar uma instabilidade política aguda para desgastar o seu governo sem se importarem com o que isso levaria de negativo para a população. 
Citando as acusações que embasam a denúncia do impeachment, Dilma voltou a afirmar não ter cometido crimes de responsabilidade, afirmando que os "resultados fiscais negativos são consequência da desaceleração econômica e não sua causa", e enfatizou que derrubar seu mandato pelos motivos alegados abre um perigoso precedente para políticos daqui para frente.
"O processo de impeachment seria legítimo por cumprir ritos e prazos. Mas só a forma não basta. É necessário que o conteúdo também seja justo. Ouso dizer que este processo se desviou clamorosamente de suas legalidades", prosseguiu a petista. "O direito de defesa aqui é só formal, mas não apreciado substancialmente em seus argumentos. A forma dá legitimidade ao que é ilegitimo em sua essência."
Após recordar ter vivido na pele as injustiças da ditadura militar, período em que se juntou à luta armada e chegou a ser presa e torturada, e ressaltar seu desejo de que novas eleições sejam convocadas como melhor forma de se preservar a democracia, Dilma relembrou do câncer que enfrentou poucos anos atrás e de como condená-la pelos crimes de responsabilidade seria o decreto de sua morte política. 
"Na primeira vez, fui condenada por um tribunal de exceção. Hoje, quatro décadas depois, não há prisão ilegal, não há tortura, meus julgadores chegaram aqui pelo mesmo voto popular que me levou à Presidência. Mas continuo de cabeça erguida olhando aos meus julgadores [...] Só que sofro com o sentimento de injustiça e temo que, mais uma vez, a democracia será condenada."

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