Rio abre Olimpíada tentando elevar autoestima do brasileiro

A palavra improviso, uma das que melhor sintetizam a identidade brasileira, posta em prática, mostrou-se providencial para a cerimônia de abertura dos XXXI Jogos Olímpicos nessa sexta-feira, no Maracanã, Rio de Janeiro. O conceito prometido pelos diretores do espetáculo, Fernando Meirelles, Andrucha Waddington e Daniela Thomas, foi a salvação para um evento que sofreu muitos cortes em sua reta final, vítima da escassez de recursos financeiros que assola o País. 
Na verdade, foi muito além das expectativas, emocionando o público no templo do futebol brasileiro e oferecendo uma injeção considerável de autoestima ao País em momento complicado. Tudo isso proporcionado com um espetáculo visual multicolorido, inserido nas tradições festeiras do Brasil, tão decantadas mundo afora.

A proposta dos criadores era entregar uma cerimônia “low-tech”, ou seja sem grandes efeitos eletrônicos, apostando no analógico e com um custo dez vezes menor que o do evento anterior, em Londres-2012. Chamando a atenção para o respeito à diversidade e à preservação da natureza, a celebração mostrou-se das mais bem sucedidas ao trazer, de fato, uma mensagem de otimismo, mas sem deixar de retratar com muita personalidade a chamada alma brasileira.
Quem esteve nas tribunas de imprensa do Mário Filho na noite histórica para o esporte nacional e internacional pôde detectar isso na reação de muitos dos jornalistas estrangeiros presentes, que a cada atração musical deixavam-se levar pelo balanço das canções, fosse balançando os ombros e a cabeça, ou ainda batucando às mesas. 

Já grande parcela do público anfitrião nas arquibancadas – 75 mil pessoas – reagia a cada lance da apresentação como se sentisse fielmente retratado pelos mais de 200 artistas em cena, ajudados por cerca de 5 mil voluntários. Foi assim diante das emocionantes encenações da “Invasão de Pindorama”, momento em que os portugueses roubaram a paz dos primeiros habitantes da hoje esquecida nação indígena e do 14 Bis, de Santos Dumont, simulando, com a ajuda de cabos e projeções luminosas, um voo pela Cidade Maravilhosa com uma emocionante reprodução de “Samba do Avião”, de Tom Jobim, ao fundo. 
Outra ode à Bossa Nova surgiu na passagem da modelo Gisele Bündchen pelo gramado do Maracanã ao som de “Garota de Ipanema”, homenageando também o arquiteto Oscar Niemeyer, o paisagista Burle Marx e o escritor Jorge Amado. 
No fim do primeiro ato, a audiência foi ao delírio com uma parte dedicada aos sons vindos do morro: samba, rap e funk, e tendo “País Tropical”, de Jorge Benjor, para encerrar os 50 minutos iniciais da festa. A mestre de cerimônias deste momento de diversidade cultural e empoderamento feminino foi a atriz Regina Casé. Ela pediu à audiência que deixasse de lado as disputas e celebrasse as diferenças. 


Desfile
Nos 110 minutos seguintes, deu-se o desfile das mais de 200 delegações nacionais.
Foi uma pausa nas emoções até a entrada triunfal do Time Brasil, o último a ganhar o gramado do Maracanã, tendo à frente a porta-bandeira Yane Marques, do pentatlo moderno, e ao som de “Aquarela do Brasil”.
Após os discursos de Carlos Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), e Thomas Bach, do Comitê Olímpico Internacional, o presidente interino Michel Temer manteve a tradição e abriu oficialmente os Jogos, mas não apareceu sequer no telão. Mesmo assim, foi muito vaiado pelo público. 
Em sequência a outro momento musical, com as participações de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Anitta, foi a vez da consagração da arrojada e ecologicamente correta pira olímpica – com baixa emissão de gases. O fogo passou pelas mãos de Gustavo Kuerten e Hortência antes de chegar ao maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, que teve a honra de protagonizar o ato mais solene dos Jogos.

Pery Negreiros, com imagens de AFP e Fotos Públicas
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