Temendo ser morto, delator recua e não incrimina policiais

Afirmando estar sofrendo ameaças de morte e temendo por sua integridade física, o delator Lindoberto Silva de Castro, 33, o 'Louro', recuou. O homem havia revelado a existência de um esquema de pagamentos milionários a policiais civis e militares oriundos de propinas e extorsões a traficantes internacionais. Ontem, em depoimento de mais de duas horas na 11ª Vara da Justiça Federal, ele não confirmou todos os termos da colaboração premiada que havia firmado com o Ministério Público Federal (MPF), em novembro do ano passado.
Aparentemente nervoso, ele disse ao juiz Danilo Fontenelle Sampaio, que não confirmaria que ele e outros integrantes da quadrilha da qual fazia parte teriam sidos extorquidos por agentes da Segurança Pública em mais de R$ 5 milhões. "Essa parte dos policiais eu não confirmo não", disse Lindoberto Castro. Ele alegou que não estar "vendo segurança" e a "proteção prometida", quando firmou o acordo.
'Louro' é apontado nas investigações da Polícia Federal (PF) como integrante da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e um dos líderes da quadrilha que tinha várias ramificações e núcleos. Ele, seria responsável com outros membros, de acordo com a PF e o MPF, de um dos mais elaborados esquemas de comércio de entorpecentes já investigados no Ceará.
Preso durante os desdobramentos da 'Operação Cardume', deflagrada em setembro do ano passado, 'Louro' é uma peça-chave desse esquema. Ele fechou o acordo de colaboração premiada com o MPF, que foi homologado pela Justiça Federal.
Em quatro depoimentos, nos meses de novembro e dezembro, contou como eram as rotas, de onde vinham as drogas e armas e como elas entravam no Estado. No fim do ano passado, deu detalhes da participação de delegados, inspetores e PMs, na logística do consórcio internacional de narcotraficantes que tinha sede nos estados do Ceará e Rio Grande do Norte e possuía ramificações na Bolívia, Paraguai, Itália e Portugal.
No entanto, ao ser questionado ontem pelo juiz Danilo Fontenelle Sampaio se confirmava todos os termos da delação, Lindoberto Castro pediu que o juiz lesse os depoimentos. Antes revelou que estava com medo e sofrendo ameaças de agentes penitenciários e policiais. "Estou sendo martirizado dentro do Sistema (Penitenciário). Os agentes estão vindo me intimidar e eu estou psicologicamente abalado. Os agentes penitenciários imaginam, porque não têm acesso à delação, que eu delatei como é que entra celular e drogas dentro do sistema penitenciário. E isso não existe na delação. Só que na mente deles tem isso".

Medo
Após as leituras dos depoimentos, diante do juiz Danilo Fontenelle, do procurador da República Lino Menezes e de cerca de dez advogados de réus no processo, Lindoberto deixou claro que não confirmaria as informações contra os policiais por medo de ser morto.
Lindoberto Castro disse que ao resolver contar o que sabia queria se regenerar do crime que cometeu, sair do tráfico, viver ao lado da família e cooperar com a Justiça. "Se eu soubesse que cooperar com a Justiça era passar por isso que estou passando, eu tinha ficado na minha".
Apesar do recuo de Lindoberto no que diz respeito à corrupção de policiais e da acusação da compra de liminares por parte do advogado Mauro Rios para Roberto Oliveira de Sousa, um dos integrantes da organização criminosa, o procurador Lino Menezes disse que o que foi dito na delação com relação a isso já está sendo investigado em outros inquéritos. "Quando o juiz homologou a delação premiada em juízo eu requeri que fossem feitos inquéritos distintos para cada assunto", disse.

Confissões
'Louro' confessou que entrou no tráfico de drogas aos 15 anos e que, pelo menos, há três, estava negociando com fornecedores da Bolívia e do Paraguai a entrega de maconha e cocaína no Ceará e Rio Grande do Norte.
Confirmou ainda a participação de George Gustavo da Silva e Cícero de Brito, também apontados na denúncia do MPF como líderes da quadrilha transnacional. Isentou outros comparsas e declinou os nomes dos responsáveis por fazer funcionar a venda de entorpecentes da organização criminosa.
Segundo o procurador da República Lino Menezes, como ele confirmou parcialmente a delação e havia a promessa de redução da pena de um terço a dois terços, o juiz pode dar a redução mínima. "O fato de ter sido confirmado totalmente ou não a delação vai refletir na dosimetria da pena", afirmou.

Diário do Nordeste
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