Armazenamento de água nas casas favorece criadouros de mosquito

Armazenar água em casa sem a devida proteção favorece o surgimento de criadouros do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, febre chikungunya, zika (e, consequentemente, microcefalia). Essa relação já é conhecida pelos pesquisadores e agentes de endemias.
Os dados do Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti (LIRAa) em 162 municípios apontaram que 21 cidades apresentaram elevada taxa de infestação, comprovando a ligação entre água parada no interior das casas e focos do vetor. São centros urbanos que enfrentam grave crise de abastecimento de água.
As dez cidades com elevados índices de infestação predial são: Capistrano (15,1%), Quixeramobim (13,5%), Canindé (8,8%), São Luís do Curu (8,5%), Varjota (8,4%), Ipaumirim (8,3%), Boa Viagem (7,3%), Viçosa do Ceará (7,3%), Irauçuba (7,0%) e Tauá (6,8%).
No período de janeiro a agosto deste ano, houve uma redução de 66% nos casos de mortes por dengue, em relação ao igual período anterior, segundo boletim epidemiológico da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). Em 2015, foram 57 mortes e, neste ano, até agora, 19.

Apreensão
O temor das autoridades é que o acúmulo de água em recipientes diversos nas casas por causa da escassez de abastecimento regular possa provocar um crescimento dos casos de doenças relacionadas com o mosquito Aedes aegypti.
A cada período de chuvas costumam ocorrer picos dessas doenças. Agora, durante a estiagem, as autoridades de saúde verificam que há um forte potencial de risco de retomada delas, pois a ausência de chuvas obriga os moradores a reservar o recurso em baldes, tambores e vasilhas diversas.
Nas cidades do Interior, as famílias estão cada vez mais armazenando água em diversos recipientes como reserva destinada a uso variado. A água chega por meio de carros-pipa de forma gratuita ou comprada e também é recolhida em chafarizes instalados nos centros urbanos para atender a demanda ante a escassez dos reservatórios.
Na cozinha, áreas, salas, garagem, banheiro e em cima das pias e lavatórios, baldes com água passaram a compor a cena das casas interioranas. "É o jeito, não tem mais água nas torneiras e a gente torna a guardar nos baldes", disse a dona de casa Nilda Oliveira, moradora da cidade de Boa Viagem. "É preciso ter reserva para usar ao longo da semana".
O coordenador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Ceará, Fernando Carneiro, confirma a relação entre armazenamento de água e os criadouros do mosquito Aedes aegypti. "Já sabemos dessa relação que é encontrada em vários lugares e faz parte de um contexto ambiental e cultural. Com certeza, potencializa a epidemia", afirmou. A falta de saneamento básico e a necessidade de armazenar água em decorrência da crise de abastecimento obrigam muitas famílias a deixar baldes, latas e tambores cheios para o uso doméstico. "O correto seria não ter essa demanda, as casas terem reservatórios elevados e lacrados, mas não é isso que ocorre em muitas cidades e localidades", frisou Fernando Carneiro.

Agravamento
Para o coordenador da Fiocruz no Ceará, é preciso ocorrer intensificação do trabalho dos agentes de endemias, maior controle e fiscalização: "Existem alternativas de controle biológico e o peixamento dos reservatórios é um meio eficaz. Mediante o agravamento da crise de abastecimento de água há um risco crescente de retomada dos casos dessas doenças, por isso é necessário o apoio dessas famílias".
A coordenadora de endemias da Secretaria de Saúde de Iguatu, Nayane Freire, observou que o período é de ausência das chuvas e, por isso, não há água acumulada em terrenos. "Os focos são dentro das casas nos recipientes que estão servindo para armazenar a água, que está parada, limpa e perfeita para que seja um criatório do mosquito", disse.
No período de janeiro a agosto deste ano, houve uma redução de 66% nos casos de mortes por dengue, em relação ao igual período anterior, segundo boletim epidemiológico da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). Em 2015, foram 57 mortes e, até agora, 19.
Foram observados 104 casos de dengue grave entre janeiro e agosto de 2015 e 32 ocorrências em igual período de 2016. Neste ano, até agosto, foram confirmados 26.627 casos, enquanto que, em 2015, foram 47.560 registros confirmados.
Dos 184 municípios cearenses, 159 registram dengue. As mortes por dengue ocorreram em Fortaleza (10), Maracanaú (3), Caucaia (2), Aquiraz (2) e Aracoiaba, Crato, General Sampaio, Horizonte, Itaiçaba, Itapajé, Mulungu, Paraipaba, Pentecostes, Quixadá, Russas, Solonópole, Trairi e Tauá com um caso.
Já os casos suspeitos de febre chikungunya notificados entre janeiro e 10 de setembro passado totalizam 40.249. Desde, 22.286 (55,4%) foram confirmados. Foram descartados 6.649 (16,5%) e seguem em investigação 11.314 (28,1%).
Ainda segundo boletim epidemiológico da Sesa, houve dois picos da doença nos dias 8 e 29 de maio passado. Não há dado comparativo com ano anterior. A Sesa, até a semana passada, registrou sete óbitos por febre chikungunya e há 41 casos em investigação. No Ceará, entre outubro e dezembro de 2015, foram notificados 231 casos de microcefalia e alterações do Sistema Nervoso Central (SNC).
Desse total, 53 (23%) foram confirmados; 125 (54%) foram descartados e 53 (23%) estão em investigação. Em 2016, até agosto passado, foram notificados 336 casos. Destes, 85 foram confirmados (25,2%) e 102 (30,3%) estão em investigação. Os demais foram descartados.

Diário do Nordeste
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