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Sob vácuo deixado por Teori, ministra Cármen Lúcia será personagem da semana

De hoje até a próxima 6ª feira (27.jan) Brasília será tomada por uma eletricidade jurídico-política capaz de incinerar reputações, iluminar porões e projetar ambições. Tudo ao mesmo tempo.
A semana antecede a retomada dos trabalhos do Congresso Nacional, quando a Câmara e o Senado elegerão suas Mesas Diretoras para o biênio 2017/2018, mas o protagonismo e a caneta que repercutirão tanto no Legislativo quanto no Executivo estão abrigados no Judiciário.
A presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministra Cármen Lúcia, tem agido como quem dialoga em silêncio com os blocos de granito que compõem os monumentos da capital de República e ouve deles o recado seminal: “no jogo do poder não há vácuo. Aja!”
Caberá a ela decidir se homologa ou não, ad referendum do plenário do STF e sem esperar a redistribuição dos inquéritos em curso no gabinete do ministro Teori Zavascki, morto num acidente aéreo em Paraty (RJ), as delações premiadas dos 77 executivos da empreiteira Odebrecht.
A tendência é que Cármen Lúcia decida pela homologação, afinal o tempo não urge apenas para o governo federal que reza por todos os poros para o rápido sucesso de sua receita de arroxo fiscal. Abalados pela suspeição, disseminada nas redes sociais e na “Rádio Boato do Brasil”, de possível complô para silenciar Zavascki, o Judiciário e sobretudo o Supremo precisam conservar em suas mãos o controle e o timing da Operação Lava Jato. Nada melhor para passar essa impressão ao país que destravar as delações de Marcelo Odebrecht, do pai dele, Emílio, e dos demais 75 executivos daquela que foi a maior empresa privada brasileira.
Na esteira da divulgação dos relatos oriundos da empreiteira baiana virão os recalls das delações da paulista Camargo Correa e da mineira Andrade Gutierrez. Esses papelórios vazarão, não necessariamente nos próximos 5 dias, e atingirão em cheio biografias consideradas ilibadas. Rapidamente elas se converterão em prontuários e isso mudará sensivelmente a cena política. Além disso, há sinais consistentes de que delações saídas de operações coirmãs da Lava Jato, como aquelas que prenderam o ex-governador Sérgio Cabral e o empresário Fernando Cavendish, no Rio, estão prontas para subir à superfície da Praça dos Três Poderes. Há nelas energia suficiente para queimar circuitos que ligam os sistemas nas sedes de cada um deles.
Nos dias 1 e 2 de fevereiro, quando o Congresso eleger os presidentes da Câmara e do Senado e as Mesas Diretoras das duas Casas, o que se ouvirá nos plenários verde e azul sob as cúpulas projetadas por Oscar Niemeyer será apenas eco dessa semana em que o país lançará os olhos para os atos da ministra Cármen Lúcia. Até mesmo Michel Temer, recluso a seu círculo restrito de convivas nos palácios do Planalto e do Jaburu, e fustigado pela suspeição de que ele e seu grupo de governo seriam os maiores beneficiários de atrasos e protelações da Lava Jato resultantes da morte trágica de Teori Zavascki, segura o ímpeto de revelar o nome de quem indicará para ocupar a vaga no STF.
Mas a presidente do Supremo ainda decidirá, esta semana, se acata ou não as contra-razões apresentadas pela assessoria jurídica da Câmara na defesa do direito de Rodrigo Maia (DEM-RJ) de pleitear novo mandato de presidente da instituição. Também dela será cobrada a decisão de redistribuir de imediato, ou de despachar como plantonista, habeas corpus impetrado pela defesa do ex-deputado Eduardo Cunha (como assinalou ontem texto preciso de Fernando Rodrigues).
É por tudo isso que a personagem da semana será a ministra Cármen Lúcia. Acaso ou não, no Candomblé há uma divindade que tem por missão administrar raios, trovões, ventos e tempestades, governando-os: é Iansã, entidade feminina como a presidente do STF. Iansã é, ainda, o único orixá que não teme os mortos e divide com Xangô o poder de fazer justiça. Há uma eternidade por acontecer nesses próximos 5 dias e uma curiosidade surpreendente: a eletricidade dos relâmpagos se propaga muito bem no vácuo, caso se insista na instalação dele.

Luís Costa Pinto é jornalista.
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