'O crime não é organizado', diz secretário de Segurança

O titular da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), André Costa, afirmou ontem em entrevista ao Diário do Nordeste que "o crime não é organizado" e que "organizada é a Polícia". Seguindo o estilo de enfrentamento adotado desde o início da gestão, o secretário disse que a Polícia irá demonstrar essa organização através de operações em que "não irá se intimidar com os criminosos".
Para ele a captura de alguns suspeitos e de parte do dinheiro roubado de duas agências bancárias, no município de Missão Velha, no dia 3 de fevereiro, é um exemplo do posicionamento de enfrentamento aos criminosos. Na ocasião, contrariando o discurso de Costa de que "o crime é desorganizado", uma quadrilha fortemente armada com fuzis e escopetas sitiou a Cidade, atacou dois bancos e ainda atirou em direção a uma aeronave da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer).
Outro exemplo de organização da criminalidade é o avanço das facções criminosas como Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e Família do Norte (FDN) tanto nos presídios quanto nas ruas do Estado. O tráfico de entorpecentes é disputado pelos criminosos e têm resultado em homicídios e outros crimes.
Para combater a expansão da venda de drogas, André Costa afirmou que desenvolverá ações que irão interceptar o financiamento da comercialização de entorpecentes no Estado, já que a prisão de um suspeito não significa o fim da prática criminosa, e sim a continuação por outra pessoa que esteja em liberdade. Como irá fazer para "atacar" as finanças dos traficantes de entorpecentes, o secretário André Costa ainda não revelou.

Homicídios
O resultado do fim da trégua entre as facções e a anomia da SSPDS durante a troca de comando das forças de segurança resultou no aumento de mortes violentas em janeiro deste ano, primeiro mês da gestão de André Costa. No Estado, o crescimento foi de 8%, após 16 meses seguidos de queda, em comparação a mês igual do ano anterior.
Para combater o tráfico de drogas e frear o aumento de homicídios, ele diz aproximará a Divisão de Combate ao Tráfico de Drogas à Divisão de Homicídios
Já na Capital, a Polícia registrou um acréscimo de 26,8% na estatística de Crimes Violentos Letais Intencionais. Para o secretário, o aumento de homicídios não está ligado ao crescimento da criminalidade, e sim às mudanças recentes na cúpula da SSPDS. "Um fator é esse momento de troca de comandos na PM e na Polícia Civil".
"O outro fator que impacta é que a gente tomou uma decisão de combater com mais forças os crimes de roubos, assaltos. Quando se vê os horários e os locais onde são praticados os homicídios, não são os mesmos horários e locais onde se praticam os roubos. Quando a gente começou a focar nas duas frentes, isso também pode ter colaborado para o aumento de homicídios", afirmou o titular da SSPDS.

Efetivo
André Costa disse que terá que fazer reajustes no efetivo policial para se adequar a esse crescimento de mortes violentas, sem abandonar o trabalho contra os roubos e furtos. "A gente vai buscando equacionar e encontrar uma melhor distribuição dos nossos recursos logísticos e humanos para combater essas duas frentes", completou Costa.
Para combater o tráfico de drogas e frear o aumento de homicídios, que é o principal indicador de violência para o Estado, o secretário de Segurança Pública disse que aproximará duas Delegacias Especializadas da Polícia Civil: a Divisão de Combate ao Tráfico de Drogas (DCTD) e a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). "Nós sabemos que muitos casos de homicídio são ligados ao tráfico de drogas. Então, que haja uma atuação mais constante entre essas duas delegacias para que a gente possa ter um combate mais eficiente", destacou o secretário da Segurança André Costa.
No entanto, a diretora da DHPP, delegada Socorro Portela, já afirmou que sairia por duas vezes, deixando uma das Especializadas mais importantes da SSPDS sem um comando efetivo. André Costa afirmou, no entanto, que ela permanecerá. Já na DCTD, a delegada Patrícia Bezerra segue na titularidade.

Subnotificação
Ao contrário dos homicídios, os Crimes Violentos contra o Patrimônio (CVPs), que englobam todos os tipos de roubo e os furtos, apresentaram queda de 6,8% e 3,3%, respectivamente, no Estado, no primeiro mês da gestão de André Costa na SSPDS, conforme dados fornecidos pela Pasta. Apesar de falar em queda, os roubos e furtos são subnotificados, reconheceu Costa.
Segundo o secretário, muitas pessoas deixam de fazer Boletins de Ocorrência (B.O.) devido a demora e a complicação de ir até a Delegacia, mas a Pasta já fez esforços para diminuir a burocratização e, consequentemente, a subnotificação. "O que a gente quer é ter números reais, e não ficar escondendo, porque isso não vai nos ajudar em nada na tomada de decisões".
O reforço do efetivo da Polícia Civil é apontado como essencial por André Costa para aumentar o registro de B.Os. "Tem que ter efetivo nas Delegacias do Interior que estejam aptos de fazer essa ocorrência, e tem que aumentar o efetivo da Capital para aumentar o acesso do cidadão, e evitar que ele deixe de ir porque é complicado e demorado".
A Polícia Civil do Ceará recebeu, no ano passado, o reforço de 510 policiais civis, entre delegados, escrivães e inspetores, que haviam sido aprovados no último concurso. Mais 143 devem tomar posse neste ano, o que representa um aumento de 30% no efetivo da instituição.
Os policiais civis reivindicam reajuste salarial com equiparação à média do Nordeste, o que foi sinalizado para os policiais militares através de projeto de Lei que foi enviado pelo governador Camilo Santana à Assembleia Legislativa do Ceará, para aprovação, e que irá representar um gasto de R$ 400 milhões, segundo André Costa.
O secretário de Segurança Pública afirmou que irá se esforçar para conquistar o reajuste para escrivães e inspetores da Polícia Civil, mas disse que não depende dele. "Posso prometer só o que depende de mim. Aumento (salarial) depende da equipe econômica que trabalha com o governador. Ele quer que o servidor, qualquer que seja a área, receba o melhor possível, mas existe uma responsabilidade do Estado, fiscal e orçamentária, para que a gente possa pagar tudo em dia", justificou.

Diário do Nordeste
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