Câmera de fotógrafa registra acidente de helicóptero em dia de casamento

A câmera de pequeno porte que estava dentro do helicóptero que levava a noiva Rosemeire Nascimento Silva, de 32 anos, para seu casamento em São Lourenço da Serra, na Grande São Paulo, foi encontrada em meio à mata apenas quatro dias depois da queda por um irmão da noiva. Ele procurava pertences pessoais de Rosemeire e a aliança do outro irmão deles, Silvano Nascimento da Silva, que acompanhava a noiva no voo. Além dos dois, o piloto e uma fotógrafa morreram.
Foi esta câmera que gravou todo o percurso – desde a decolagem no hangar da empresa proprietária da aeronave, a HCS Táxi Aéreo, em Osasco, também na região metropolitana de São Paulo, até a queda. A pequena câmera era levada pela fotógrafa Nayla Cristina Neves Lousada, que também estava na aeronave, e havia sido contratada por Rosemeire para registrar a celebração.

ATENÇÃO: as imagens são fortes.

Nayla estava sentada ao lado do piloto do helicóptero Robinson 44, prefixo PR-TUN, e fixou, durante o voo de pouco mais de 25 minutos, a câmera à sua frente, virada para a noiva e seu irmão. Os dois estavam sentados nos bancos traseiros do helicóptero. Nayla estava grávida de 6 meses e tinha também duas filhas.
Nos 5 minutos finais de voo, quando o piloto Peterson Pinheiro começa a ter dificuldades de controlar a aeronave, realizando manobras, Nayla vira com frequência o equipamento, mostrando o painel de navegação. As imagens retratam ainda o cenário de neblina forte e pouca visibilidade do ambiente externo.
Quando a câmera de Nayla foi encontrada, com pelo menos cinco vídeos e 331 fotos de todo o voo, a Polícia Civil, o Instituto de Criminalística da Secretaria de Segurança de São Paulo e o Cenipa já tinham feito perícia no local e não tinham encontrado o aparelho.
O conteúdo foi entregue na íntegra para a Polícia Civil e para a Aeronáutica, que ainda estão realizando perícia no material. A Delegacia de Polícia de São Lourenço possui um inquérito sobre o caso ainda em andamento, que apura homicídio culposo e corre sob sigilo de Justiça.
As imagens captadas pela câmera que a fotógrafa Nayla carregava irão ajudar a apontar causas da tragédia. A pedido do G1, o coronel da reserva da Aeronáutica Luís Claudio Lupoli, que atuou como investigador do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), analisou o vídeo e apontou alguns possíveis erros do piloto na condução da aeronave devido ao conflito aparente de uso de controle de voo de forma visual e também por instrumentos.
Após analisar as imagens, o coronel Lupoli entende que é possível que o piloto não tivesse conhecimento para operar o helicóptero, um Robinson R44 Raven II, prefixo PR-TUN, em condições por instrumentos, pois realiza movimentos bruscos para tentar estabilizar a aeronave.
A aeronave que caiu só poderia ser utilizada, conforme seu registro oficial, para operações em condições visuais, em que o piloto usa referências visuais de solo, horizonte e tempo, e não apenas os instrumentos a bordo.

Investigação
Nos dias que se seguiram à tragédia, o delegado que estava à frente do caso na época, Flávio Luís Teixeira, afirmou que acreditava que "as condições do tempo na hora podem ter sido determinantes" e que havia a possibilidade de o helicóptero ter colidido contra árvores de até 40 metros de altura ou em um morro próximo.
A Polícia Civil ouviu depoimentos de parentes dos noivos e de funcionários da empresa HCS e também da Voenext, que intermediou o voo, para tentar obter mais informações sobre a situação da aeronave e detalhes da manutenção.
Tanto a polícia de São Lourenço quanto a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) ainda investigam se a aeronave poderia transportar a noiva, já que estava registrada para servir unicamente para transporte aéreo privado. Tanto a HCS quanto a Vonext sofreram punições por parte da Anac devido ao descumprimento da legislação nacional.
O advogado da família de Rosemeire e Silvano, Fernando Reis, afirma que as imagens mostram erros do piloto e comprovam a responsabilidade das empresas pela queda, já que Peterson Pinheiro era funcionário da HCS. “As imagens mostram o desespero dos passageiros e o erro crasso do piloto. Ele não tinha ideia do que estava fazendo”, aponta o advogado das famílias, Fernando Henrique dos Reis, em relação às manobras realizadas por Pinheiro nos momentos que antecedente a queda.
A defesa dos familiares da noiva e de seu irmão pretende ingressar com um processo na Justiça pedindo indenização por danos morais e materiais contra as empresas envolvidas no acidente. “Iremos pontuar no processo que a empresa Voenext funciona apenas como intermediadora e não tem autorização para fazer voos de translados e de táxi aéreo, assim como a HCS, pois o helicóptero era registrado para uso privado. Isso só agrava mais a responsabilidade das empresas, que não poderiam efetuar este tipo de serviço”, salientou.
Já a investigação do Cenipa, que tem como objetivos prevenir que novas tragédias aéreas se repitam, ainda está sendo realizada pelo Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa 4, órgão regional do Cenipa em São Paulo), que aguarda resultados de perícias feitas em partes do helicóptero, como o motor e hélices, em São Carlos, no interior de São Paulo, e também do vídeo feito pela câmera da fotógrafa Nayla.
Logo após o acidente, o major Caio Batalha, investigador que estava à frente da investigação, afirmou ao G1 que acreditava que as hélices do helicóptero poderiam ter colidido contra copas das árvores da região, já que havia algumas árvores quebradas quando vistoriou o local. "Eu não posso afirmar que caiu por causa disso, todos os fatores contribuintes serão analisados mas a copa das árvores estão quebradas. Pode ser que as copas se quebraram como causa ou consequência da queda. Ou as hélices se bateram e caiu ou se chocou por causa da queda. Tiramos fotos e vou analisar", afirmou o oficial.

Surpresa
A noiva que morreu no acidente tinha o sonho de chegar ao seu casamento de helicóptero, segundo informou o dono do buffet e responsável pela organização da festa, Carlos Eduardo Batista. A festa seria realizada no Recanto Beija-Flor, espaço para festas de casamentos na cidade da Grande São Paulo, por volta das 16h de domingo, horário aproximado da queda da aeronave. O buffet fica a cerca de 2 km do local da queda.
Conforme o advogado da família de Rosemeire e Silvano, foi Carlos quem indicou a empresa Voenext para Rosemeire, após ela ver uma foto de uma noiva chegando de helicóptero no local durante a primeira visita que fez ao buffet.
Foi Carlos também quem informou sobre o acidente ao noivo, Udirley Marques Damasceno, de 34 anos. Ele a esperava no altar. “O noivo não sabia que ela chegaria de helicóptero. Seria uma surpresa para ele e para todas as pessoas da festa. Todas as noivas têm um sonho e o dela era chegar de helicóptero a seu casamento sem que ninguém soubesse”, disse Carlos, um dos poucos que sabia da surpresa para poder organizá-la.
O dono do buffet afirmou que estranhou quando o helicóptero não pousou no campo de futebol do sítio e procurou a empresa responsável pela aeronave. “O dono disse que o helicóptero já tinha subido e que já deveria ter chegado”. “Pouco depois, ele mesmo me disse que uma aeronave tinha caído, mas que não imaginava que seria a sua própria”, completou.
Na sequência, Carlos procurou autoridades, como Bombeiros e Polícia Civil e apenas informou ao noivo e aos convidados que a noiva não conseguiria chegar de helicóptero como havia planejado por causa do mau tempo. Quando recebeu a confirmação da queda e das mortes, Carlos comunicou primeiramente o noivo. “Chamei o pastor que estava na cerimônia e ele foi comigo comunicar para tentar acalantar o noivo. Ele ficou em estado de choque. Depois, os demais convidados [cerca de 300] souberam e ninguém sabia como agir. Foi uma tragédia”.

G1 SP
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