Cearense com raro tipo sanguíneo salva vida de bebê colombiano

A vida de um bebê da Colômbia de fenótipo Bombay, raro tipo sanguíneo, foi salva pela generosidade de um cearense. Isso foi possível porque o Ceará foi o primeiro estado brasileiro a realizar o envio internacional de sangue raro para doação, de acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Foi também a primeira vez que a Colômbia recebeu sangue doado por outro país. A missão ocorreu com sucesso, após cruzar fronteiras e atravessar mais de quatro mil quilômetros. No Brasil, somente 11 famílias possuem o fenótipo.
A operação foi iniciada na última quinta-feira (6), após solicitação do Ministério da Saúde, que identificou um potencial doador no Ceará. O rapaz do interior do Estado, de 23 anos e de identidade não divulgada, atendeu prontamente o pedido e fez a doação de sangue no dia seguinte. Já nesta quarta-feira (12), foi realizada a transfusão sanguínea para a criança, que ocorreu em Medellín, na Colômbia. O Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce) enviou o sangue doado na última segunda-feira (10). Por conta de sangramento digestivo grave, desnutrição e anemia, a criança colombiana, de um ano e dois meses, precisava receber transfusão com urgência. Foram aproximadamente 350 ml de sangue doados. 
“O primeiro passo foi entrar em contato com o doador e convidá-lo a realizar a boa ação. Quando liguei e contei sobre o caso, ele mostrou-se sensível à atitude solidária e já no dia seguinte esteve no Hemoce doando sangue”, diz Nágela Lima, coordenadora da captação de doadores. Para ela, a atitude do doador deve ser também um exemplo para outras pessoas. “A doação de sangue demonstra que atitudes simples podem trazer a esperança na vida de pacientes que aguardam por uma transfusão independentemente do tipo sanguíneo”, conclui.

Tipo sanguíneo raro
O tipo sanguíneo Bombay é considerado muito raro. O Fenótipo Bombay (hh) não tem o antígeno H nas células vermelhas do sangue. Pessoas com esse tipo de sangue só podem receber doação de outras que tenham o mesmo tipo sanguíneo. O caso raro é chamado ainda de Fenótipo de Bombaim, também conhecido como Falso O. O grupo sanguíneo de Bombay tem nenhum antígeno ABO, nem H. Esse tipo é mais comum na Índia e foi descrito pela primeira vez na cidade de Bombaim, também conhecida como Mumbai, naquele país.
De acordo com a hematologista Denise Brunetta, coordenadora do laboratório de Imuno-hematologia do Hemoce, foi possível descobrir o doador com esse fenótipo no Ceará através do trabalho desenvolvido no laboratório de Imuno-Hematologia do Hemoce.
“Todo o sangue doado no Hemoce passa por um processo de análise e testes que incluem tipagem ABO e RH e pesquisa anticorpos irregulares. Há quase quatro anos, o Hemoce adotou um novo método na busca de doadores raros que permite detectar diferentes tipos sanguíneos, inclusive raríssimos como o fenótipo Bombay”, explica Denise.

Agilidade 
Segundo o diretor de hemoterapia do Hemoce, Franklin Santos, a agilidade na entrega do material contou com o apoio do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para que fosse liberada a documentação necessária para envio do hemocomponente. “Nós agradecemos todo o apoio recebido para tornar essa ação possível, afinal de contas, tudo precisou ser feito com rigorosos critérios de segurança e agilidade”, enfatiza Franklin. A OPAS acompanhou todo o processo.
Para a bolsa chegar à Colômbia em boas condições para a transfusão foi necessário manter o hemocomponente em temperatura ideal. “O cumprimento dos requisitos estabelecidos pelas normas visam garantir a integridade e a estabilidade do material biológico transportado”, afirma Francisca Rodrigues, chefe do núcleo de medula óssea do Hemoce.
A rapidez na entrega do material e a dedicação ao serviço foram destacados pela coordenadora do sangue da Colômbia. “Não tenho como expressar meu agradecimento e felicidade. Obrigada pela solidariedade, pelo trabalho árduo e por ajudar nossa criança. A Colômbia está agradecendo por tudo o que vocês fizeram. Nós temos muito que aprender com vocês”, declara Izabel Forero.
A enfermeira Natalícia Azevedo foi a responsável por entregar o material coletado na Colômbia. “Assim que cheguei ao aeroporto, a coordenadora do sangue da Colômbia, Izabel Forero, já estava me esperando na porta de desembarque acenando vigorosamente. Para mim foi uma emoção tremenda participar desse momento tão importante”, fala Natalícia.
Para a diretora geral do Hemoce, Luciana Carlos, o procedimento inédito no País é fruto de um trabalho em equipe. “Mais uma vez o Hemoce é pioneiro no Brasil na realização de procedimentos de hemoterapia e isso demostra o enorme comprometimento e competência dos profissionais que trabalham com a missão de salvar vidas”, diz.
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