Sonho dos tucanos cearenses: Geraldo Luciano para governador

A política não se relaciona bem com as ciências exatas. Sim, meus caros, a política é uma arte que zomba das linhas retas e viceja de um modo sempre bastante peculiar. Muitas vezes, imperceptível. Muitas vezes, em meio ao caos. A política mexe suas peças sem que os atores pretensamente principais controlem o jogo.
Precisamente, é o que está acontecendo no Ceará com vistas às eleições estaduais de 2018. Já há um lado da disputa relativamente bem esquadrinhado e delineado. No âmbito do grupo político imperialmente comandado pelos irmãos Ferreira Gomes, dá-se como certa a recandidatura de Camilo Santana (PT) em dobradinha com Cid Gomes (PDT) para o Senado.
Ainda tudo muito fluido, claro. Afinal, o governador permanece no PT, partido que vai espernear para ter o condenado Lula candidato a presidente. Já os Ferreira Gomes têm em Ciro uma espécie de patriarca do grupo, o mais consolidado nome entre todos do País para disputar a Presidência da República.
Ciro, por óbvio, sonha com Lula fora do jogo. É seu plano herdar o eleitorado da esquerda e os órfãos do lulo-petismo que não sentem em Marina Silva (Rede) uma alternativa suficientemente capaz de dar as respostas ao gigantesco enfrentamento nacional.
Para Ciro, portanto, é bom, por enquanto, que Camilo permaneça no PT. Quem sabe, apostando numa aliança formal (aqui e no Brasil) já no primeiro turno. Quem sabe, deixando as coisas ajeitadas para o segundo turno. O fato é que o cirismo abrigado no PDT quer manter intimidades com o PT. De uma forma ou de outra, um tende a ser conveniente ao outro.
Bom, a preço de hoje, Camilo é candidato à reeleição e trabalha firme com esse propósito. O governador se movimenta de forma vistosa. Nomeia tucano de carteirinha para dar uma cara profissional à gestão, atravessa o Atlântico em jatinho de presidente da Fiec, que é filiado ao PSDB e, dia sim, dia não, elogia o passado e o presente do senador Tasso Jereissati.
É coisa de alma que quer muita reza. Parece perambular pela mente do governador a ideia de minimizar as possibilidades de surgimento de concorrentes potencialmente ferozes. Se possível, fazer uma reprodução mal ajambrada da velha e batida União pelo Ceará de 1962.
De personalidade oposta aos Ferreira Gomes, Camilo é conciliador ao extremo. Cede a boiada e, se for o caso, cargos estratégicos no Governo para não entrar numa briga. Ou melhor, para evitá-la. Ou ainda melhor, para que nenhum lutador musculoso se meta em seu caminho.
Mas, como foi dito no início deste texto, a política zomba das linhas retas. Zomba também das articulações com cara de perfeitinhas.
Nos últimos dias, algo vem fervilhando entre os tucanos. Mais precisamente, entre os neurônios do senador Tasso Jereissati (PSDB). A lógica é a seguinte: o PSDB vai ter candidato a presidente em 2018, certo? Para tanto, vai trabalhar com ardor visando formar uma aliança competitiva.
De preferência, uma chapa com um nome novo, que não mantenha nenhuma relação com o lamaçal que borbulha da Lava Jato e afins. O nome é novo, mas a aliança precisará ser com os partidos que aí estão. Não há outros. Portanto, PSDB, DEM, PR e PMDB, PSD, além de outros de menor calibre, são os potenciais aliados.
Seria assim uma aliança com bom tempo no palanque eletrônico e com fortes ramificações nos estados e municípios. Se possível, agregando essas boas novidades liberais que surgiram ultimamente. Gente nova que daria um lustro e um conjunto de ideais programáticos que a política tradicional já não é capaz de oferecer.
Há no cenário fortes indicativos de que a eleição de 2018 será federalizada. Ou seja, as alianças nacionais tendem a se disseminarem e se reproduzirem no âmbito dos estados. Dessa forma, o que os tucanos conseguirem costurar para a disputa presidencial tenderá a ser costurado no âmbito estadual. O mesmo vale para os outros lados. Compreendem?
A federalização da disputa é o fruto das circunstâncias que se formaram no País. Os lados parecem bem definidos. Há a tendência da centro-direita se unir visando A isolar e derrotar a esquerda. Seja ela representada por Lula, por Ciro ou por quem mais for. E, em cada estado, será preciso um representante forte dessa aliança como candidatos a governador, a senador e a deputado.
Mas, caso as coisas ocorram assim e a aliança de centro-direita se organize no Ceará e em outros estados, será em torno de quais nomes e com quais perfis? Pois é. Aí se explica o termo “fervilhando” que usei parágrafos acima.
A eleição de 2016 na Capital de São Paulo ofereceu um rumo para os acontecimentos futuros. Um nome novo, cara nova, com trajetória desconectada da militância política, limpo, dotado de virtudes administrativas e com trajetória pessoal de sucesso alcançada por méritos próprios e independentes de favores oriundos do mandonismo público.
Melhor ainda se essa trajetória tiver se dado longe de benesses estatais típicas da praga patrimonialista nacional e do clientelismo. Apostem: será esse o perfil a ser garimpado em cada estado. Trata-se de uma imposição das circunstâncias que meteram o País em sua mais grave crise econômica e fez a nação mergulhar no lamaçal da corrupção alçado à condição de método de governar.
É sempre bom lembrar: entre 1992 e 2012, São Paulo decidiu todas as suas eleições de prefeito em dois turnos. E sempre com o PT no segundo turno. Seja para perder ou para ganhar. No entanto, em 2016, o neófito João Doria, pelo PSDB, arrancou por fora da raia e atropelou os concorrentes, PT incluso, para vencer com muita folga já no primeiro turno.
O PT ficou atônito. Tanto que encomendou pesquisa para entender os acontecimentos paulistanos. A conclusão foi espantosa: o eleitor que havia bancado o petismo nos últimos 15 anos o abandonou, se tornou um liberal, tem crença no mérito, repudia a luta de classes e vê na atual forma de estado um obstáculo para o seu desenvolvimento pessoal e profissional. Então, explicada está a voluptuosa opção por Dória.
Mas, se essa for uma boa receita, de que forma os tucanos pretendem se virar no Ceará? Afinal, o mercado de nomes com as características expostas acima é bastante restrito. Será? Nem tanto, nem tanto.
Os tucanos miram no nome do vice-presidente de Investimentos e Controladoria do Grupo M.Dias Branco, Geraldo Luciano de Mattos Junior. Sim, o executivo que passou os últimos 17 anos como braço direito de Ivens Dias Branco e seus filhos, ajudando-os a construir um impressionante império nacional na área de massas e biscoitos. Tarefa para competentes.
Aos 54 anos, Geraldo Luciano dividiu sua trajetória profissional entre o setor público e o privado. Antes de ir para o Grupo, trabalhou por 18 anos no Banco do Nordeste, enquanto estudava Administração (Uece) e Direito (Unifor), para depois concluir mestrado em Administração pela Federal do Rio.
Geraldo manteve proximidades com os dois últimos governadores do Ceará (Cid e Camilo). Com o último (e atual), mantém ligações mais próximas. Chegou a ser convidado para ser o homem forte do Governo, mas suas obrigações na área privada falaram mais alto. Porém, foi dele a iniciativa de apresentar Maia Júnior ao governador.
Mesmo assim, embaixadores tucanos já o procuraram. Coisa muito recente. Jamais receberam respostas concretas. Nem sim. Nem não. Geraldo tem se mantido calado e continua mergulhado no trabalho privado. Porém, se encaixa com perfeição no novo perfil que vem sendo detectado nas pesquisas como uma ambição do eleitorado. Os tucanos sabem bem disso e sentem o cheiro da nova estação.

Fábio Campos, em O POVO
    Comente pelo Disqus
    Comente pelo Facebook
#Compartilhe