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Pesquisa aponta números de leitores no Brasil por região e hábitos; dados

Se antes os livros variavam em tamanho e material - desde edições de bolso até os maiores, de capa dura, que costumam ganhar destaque na estante - hoje também se diversificam em suporte - os físicos, de papel; e os e-books, que podem ser baixados e lidos em tablets, e-readers e smartphones. Junto a outros fatores, essa diversidade de formatos contribuiu para transformar um aspecto importante do ato da leitura: onde se lê? Em que momentos?
Quando pensamos no livro em sua configuração mais usual - tamanho médio, capa simples, que caiba numa bolsa generosa ou mochila - esse cenários expandem-se para fora de casa ou escola: transportes coletivos, espaços de lazer como praias e parques, livrarias e até fila de supermercado tornam-se ambientes propícios para a leitura. 
Ressalte-se ainda a possibilidade de acesso a bibliografias, inclusive livros inteiros em PDF ou acervos digitaliados, o que agilizou pesquisas escolares ou mesmo acadêmicas. Apesar de todas essas facilidades, um espaço em particular resiste, no meio fio entre o tradicional e a necessidade de mudanças. Sem nunca ter perdido sua relevância, a biblioteca segue ainda hoje fortemente associada ao estudo e à pesquisa. É o que aponta a 4ª Edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, promovida desde 2000 pelo Instituto Pró-Livro.


Pesquisa: 37% do público em biblioteca não é estudante
Lançada no ano passado, traz dados coletados entre novembro e dezembro de 2015, a partir de 5.012 entrevistas realizadas pelo Ibope Inteligência. Ampla, a pesquisa traz informações diversas, como perfil de leitores e não-leitores, hábitos e barreiras para a leitura, gêneros de livros consumidos e uma parte dedicada especificamente às bibliotecas.
Fora atividades de estudo e pesquisa, os demais usos e atribuições de uma biblioteca - que poderiam ampliar seu público frequentador - tiveram percentuais baixos de menções. Ainda assim, 37% do público frequentador desses equipamentos é formado por não estudantes.
Na parte dedicada a espaços de leitura, a biblioteca aparece como terceiro melhor local para se ler, atrás apenas da própria casa e da sala de aula. Essa classificação aparece pela quarta vez consecutiva desde a primeira edição da pesquisa, quando 12% dos leitores a consideraram assim; nesta última consulta, forma 19%.

Leitura em transporte coletivo sobe para 11%
É interessante observar ainda o percentual significativo de leitura em meios de transporte (ônibus, trem, metrô ou avião), assim como em outros locais públicos. Em 2007, apenas 5% de leitores o apontavam. Em 2011, o índice aumentou para 6% e, em 2015, cresceu para 11%.
Já o número de pessoas que afirmam saber existir uma biblioteca em seu bairro ou cidade caiu de 67%, em 2011, para 55%, em 2015. Destes 55%, 66% não usufruem com frequência do local. Apenas 5% destes entrevistados afirmam ir com regularidade a uma biblioteca.

34% dos estudantes informam não frequentar bibliotecas
Entre os estudantes, 34% não as frequentam. Entre leitores, esse percentual é de 51%. Nesta edição da pesquisa, os entrevistados também foram questionados se conheciam alguma biblioteca comunitária mantida por moradores ou estabelecimentos. Apenas 15% foram capazes de confirmar a existência deste tipo de local em seu bairro ou cidade. Deste total, somente 4% frequenta uma biblioteca comunitária.
A maioria prefere as bibliotecas escolares, de universidades ou públicas. Dos 1.001 entrevistados que frequentam com regularidade uma biblioteca, 48% são da classe C. A classe B fica em segundo lugar, com 29%, e a D/E, com 19%. Somente 5% dos entrevistados de classe A frequentam bibliotecas.

Estratégias: bibliotecas como espaços culturais
O que poderia melhorar esses índices? No século XXI, o conceito de biblioteca precisa ser repensado? Segundo esta edição do Retratos da Leitura, os fatores que poderiam fazer com que os entrevistados frequentassem mais as bibliotecas são: possuir mais livros ou títulos novos; dispor de títulos que os agradem; possuir atividades culturais; existir um bom atendimento e ter acesso à internet. 
O percentual de menções a “possuir mais livros ou títulos novos” corrobora com o percentual de 41% dos que apontaram não encontrar os livros que procuram nas bibliotecas que frequentam. Segundo Marcos da Veiga Pereira, presidente do IPL, as bibliotecas ainda não são utilizadas devidamente como espaços culturais para toda a população: “É preciso rever o conceito e o modelo de atendimento desses equipamentos: oferecendo eventos culturais e atividades que promovam a leitura, mediadas por bibliotecários e outros profissionais, que possibilitem acesso a acervos atualizados e em diferentes suportes", pontua.
"As bibliotecas podem se transformar em atraentes equipamentos culturais para toda a comunidade da região e mostrar que oferecem bem mais do que um local para realizar tarefas escolares”, completa ele. A avaliação é compartilhada por Mileide Flores, coordenadora de Políticas de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult).

O que é leitura
"O conceito de biblioteca está sendo reavaliado, redefinido, por conta da mudança do público, especialmente o jovem, porque concorremos com o acervo digital. Então é preciso te um outro olhar sobre a função desse espaço", comenta. Para a coordenadora, essa reformulação exige uma mudança no entendimento sobre o que é leitura.
"É preciso ir além da concepção de biblioteca como um espaço para livros, mas de leituras, no plural mesmo, onde a pessoa vá para assistir a um documentário, um debate, ver uma exposição e, sim, ler um livro", situa. Ou seja, o consumo de diferentes conteúdos - imagens, artes visuais, palestras - pode constituir um tipo de leitura. Nesse raciocínio, qualquer estratégia passa obrigatoriamente pela questão da programação, "diversificada, que passe por todas as linguagens, não apenas da contação de história, que é o mais comum hoje. Envolver o público é nosso grande desafio", acredita.
A coordenadora cita a Biblioteca Pública Espaço Estação como exemplo bem sucedido. Em funcionamento desde abril de 2015, o esquipamento foi instalado em um galpão da extinta RFFSA, ao lado da estação de trem João Felipe, no Centro, e abriga cerca de 50 mil dos 132 mil títulos da Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel - fechada por conta de uma reforma que se arrasta há dois anos.
"Na Menezes Pimentel, o público mais frequente era de alunos do ensino médio, universitários e pesquisadores", recorda Mileide. Esse último grupo normalmente vai em busca dos acervos da hemeroteca ou da seção de livros raros, que permaneceram abertos apesar da reforma. "Esses espaços recebem entre 250 a 300 pessoas por mês", calcula a coordenadora. "Já as crianças iam muito mais pelas programações, e esporadicamente havia visitantes que iam ler ou fazer pesquisas pessoais, usando os computadores", diz.
"Já na Biblioteca Espaço Estação temos dados muito interessantes que nos animam: continuamos tendo o estudante do ensino médio e universitários, enquanto pesquisadores procuram mais a seção de microfilmagem. Mas há um novo público, que não frequentava a Menezes Pimentel, as pessoas em situação de rua. Eles vão assistir a um documentário que esteja passando ou, se forem leitores, ler jornais. São os mais assíduos das programações do espaço, ao lado das donas de casa e aposentados. Nesse último grupo, temos pessoas que todos os dias vão ler os jornais disponíveis", conta Mileide.

Diário do Nordeste
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