Investir em educação aumenta a riqueza de um país? Nobel de Economia responde

Diversas discussões políticas, mesmo as mais polarizadas e divergentes, concordam sobre uma pauta: investir em educação é saudável para os países. Tal noção foi efetivamente sistematizada pela primeira vez no trabalho do economista vencedor do Nobel em 1979, Theodore Schultz. Ele analisou os efeitos da educação na capacidade de produção agrícola e, consequentemente, em toda a economia, trazendo a resposta para a seguinte questão: investir em educação aumenta a riqueza de um país?
A questão da riqueza dos países é estudada há séculos. Adam Smith escreveu sua principal obra, “A Riqueza das Nações”, em que o autor busca cientificamente explicar por que alguns países são mais ricos que outros. Na obra, o pai da Economia (como Adam Smith ficou conhecido) busca explicar, utilizando abordagens condizentes para a época, quais seriam esses motivos, como a proximidade de rios e a capacidade comercial no sentido internacional. 
No entanto, há muitos outros motivos que levam um país a ser mais desenvolvido do que outro. É nesse sentido que os estudos de Schultz são tão importantes: em um contexto educacional, eles apresentam motivos que explicam esse abismo de riqueza entre nações, além de apresentar possíveis soluções para os países pobres se desenvolverem.
Nascido em 30 de abril de 1902, em Arlington, Dakota do Sul, Estados Unidos, Theodore Schultz foi professor em Iowa State College e na renomada Universidade de Chicago. O professor foi o primeiro acadêmico que efetivamente sistematizou a relação existente entre aumento de investimentos em educação e aumento da produtividade e salários no setor agrícola – e, claro, na economia como um todo –, chegando a conclusões importantes.
Em seus estudos, o economista comparou a situação de desequilíbrio na capacidade produtiva entre países pobres, cuja capacidade de produção agrícola é comparativamente baixa, e países ricos, de capacidade alta. Nessa análise, percebeu-se que os países desenvolvidos possuíam muito mais capital investido em “capital humano” (isto é, atributos relacionados aos trabalhadores), mais especificamente em educação, o que chamou sua atenção.
Notavelmente, educação traz desenvolvimento econômico e social, além de gerar, num contexto micro, habilidades para o indivíduo que seriam aproveitadas tanto por ele quanto por outros ao seu redor – fato já conhecido por Schultz. Contudo, o pesquisador foi além e sistematizou sua influência sobre a riqueza de uma nação. Ele analisou a economia norte-americana e percebeu que a maior parte do crescimento econômico do país está associado ao chamado “capital humano”, materializado em investimentos em educação, e não no “capital físico” (investimentos em infraestrutura e indústrias).
Ao investir em capital humano, tem-se uma maior produtividade da massa trabalhadora. Isso, por sua vez, ocasiona um maior crescimento nos investimentos em educação nos Estados Unidos. O estudo comprovou a intuição: o fato de que educação realmente contribui positivamente para o desenvolvimento econômico de um país.
Ainda nesse estudo, ele analisou os custos da educação. Além do óbvio custo material (professores, infraestrutura e material escolar), há outros custos que envolvem, principalmente, o tempo: pessoas que antes trabalhariam passam a estudar - não produzindo, nem ganhando salários. Assim, Schultz concluiu que há custos para as pessoas (deixar de ganhar dinheiro trabalhando para estudar) e eventualmente para o governo (pagar a educação das pessoas sem que elas produzam).
Seu trabalho o levou a conclusão de que países que investem mais em educação tendem a ser mais ricos. Segundo ele, mesmo que isso tenha um custo, quanto mais se investe na capacitação das pessoas, mais produtiva e rica uma nação será, de modo que os efeitos tendem a ser mais positivos que negativos.
No entanto, o caso brasileiro expõe o fato de que a mera alocação de capital para investimentos em educação, sozinha, pode não gerar resultados positivos. No Brasil, cerca de 19% dos gastos públicos são direcionados à educação. Dentre os membros da OCDE, a média gira em torno de 13%. No entanto, o País, historicamente, apresenta umas das piores notas no PISA (uma prova internacional que mede o aprendizado médio de jovens entre 15 anos e 3 meses e 16 anos e 2 meses)Atualmente, o Brasil se encontra na 63ª colocação na prova). Mesmo investindo muito dinheiro em educação (o que faria, segundo Schultz, o país ganhar ganhos de capacidade produtiva), o Brasil se mostra incapaz de alocar eficientemente tal capital
Mesmo que houvesse um aumento colossal nos investimentos do setor educacional, não necessariamente a “produtividade” dos profissionais da área aumentaria. Enquanto não houver uma melhora de professores, diretores e coordenadores, de modo a propor aulas mais eficazes e prover infraestrutura cujos recursos são alocados eficientemente, não haverá melhora na educação brasileira. O problema local não é a pura falta de dinheiro, mas sim a falta de uma estrutura coesa e bem definida no setor. 
O modelo de Schultz, que fala que o investimento em capital humano gera riqueza para um país, não aborda a qualidade da alocação do dinheiro. O caso brasileiro escancara isso. Porém, isso não desmerece o estudo: o pioneirismo do pesquisador, além de tê-lo feito vencedor do Nobel em 1979, abriu uma janela enorme no que tange ao estudo do desenvolvimento. Depois dele, diversos pesquisadores passaram a levar em conta, de maneira sistematizada, a educação como causador de crescimento econômico. Gastos públicos devem ser feitos visando a melhoria no sistema educacional, sendo feitos de maneira eficiente.
Por fim, a intuição de que a educação faz bem para um país é mais do que correta, motivo que leva qualquer pacote ideológico ou partido político a levantar tal bandeira. Comprovadamente, melhor educação traz desenvolvimento social e econômico em um contexto macro, além de melhorar a capacidade produtiva, interpessoal e social de um indivíduo. Contudo, gastar em educação não é suficiente para trazer um desenvolvimento no setor; é preciso fazê-lo com critério, planejamento e qualidade de gestão. Assim, há mais chances de fazer do Brasil uma nação verdadeiramente desenvolvida .

Samy Dana, graduado e mestrado em Economia, Doutorado em Administração e Ph.D in Business, em parceria com Lucas Vasconcelos Silva, graduando em Economia pela Fundação Getúlio Vargas e consultor da Consultoria Júnior de Economia da EESP-FGV    
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