2017: o ano em que um furacão parece ter passado pela história da política brasileira

Foram só 365 dias, como em quase todos os anos. Mas a intensidade de 2017 parece ter valido por uma década. O ano seguinte à segunda deposição de um presidente da República na história recente da democracia do Brasil foi capaz de gerar fatos políticos de proporções avassaladoras. Um turbilhão envolvendo prisões de poderosos, apartamento lotado de malas de dinheiro, condenações e solturas que tiveram como personagens os figurões do poder no país.

Pela primeira vez, um presidente da República foi denunciado criminalmente no exercício da função. Foi a primeira vez, mas não foi só uma, não. Foram duas vezes! Em junho e setembro, o Ministério Público Federal enviou ao Supremo Tribunal Federal denúncias contra o presidente Michel Temer. Nas duas, indícios de participação de Temer em esquemas de corrupção, recebimento de propina e outros esquemas ilegais. Com articulações políticas, liberação de emendas parlamentares, e muita conversa, foi livrado pela Câmara dos Deputados, num discurso de que “o país precisa avançar e não suporta o afastamento recente de mais um presidente.”

Outro debut político, e também nada comemorativo, foi a primeira condenação por crime de um ex-presidente da República. Isso desde a promulgação da Constituição de 1998. Em 12 de julho, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado pelo juiz Sérgio Moro a 9 anos e seis meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Lula não foi preso e o caso segue para ser julgado em segunda estância em 24 de janeiro.

Ao longo do ano, o presidente Michel Temer fez algumas coisas que pretendia, Sancionou a reforma do ensino médio, por exemplo. Aprovada no Congresso, a medida provisória foi alvo de críticas e protestos, gerando uma das maiores ocupações de escolas por estudantes da história. As reformas trabalhista e a eleitoral também passaram no Congresso, enquanto a da Previdência, aprovada em maio na comissão especial da Câmara, não teve ainda fôlego suficiente para passar no plenário. Espera-se que seja colocada em votação em 19 de fevereiro de 2018.

E muito se ouviu falar em 2017 da JBS. A empresa dos irmãos Joesley e Wesley Batista já era famosa pela campanha milionária da Friboi na TV. Mas foi com a deflagração da Operação Carne Fraca da Polícia Federal que um esquema criminoso no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento foi revelado. Integrantes do ministério liberavam licenças e fiscalizações em troca de propina. Gerou-se um pânico no mercado interno e externo quando até o processamento de carne com papelão foi denunciado. Dali não se parou mais de falar em Wesley e Joesley.

No Judiciário, o ano já começou triste. E com uma série de medos e incertezas. Em janeiro morreu, em um acidente aéreo, o relator da Lava Jato no Supremo, ministro Teori Zavaski. A aeronave em que ele estava caiu no litoral sul do Rio de Janeiro. Sua ausência deu lugar à indicação por Temer de Alexrandre de Moraes, então ministro da Justiça. E a relatoria da lava Jato foi para Edson Fachin.

Em abril, uma lista deu o que falar e deixou Brasília em polvorosa. Produzida com base nas delações da Odebreht, a lista de Fachin foi responsável por produzir a maior série de notas de esclarecimento dos gabinetes de Brasília. Foram três ex-presidentes, oito ministros, três governadores, mais de 25 senadores e 40 deputados federais. Todos apontados como receptores de propinas de uma das maiores construtoras do país.

Dois mil e dezessete foi também o ano das prisões de empresários e políticos graúdos. Todos por suspeitas de corrupção. Foram ver o sol nascer quadrado: Eike Batista, que já esteve na lista de um dos homens mais rico do mundo. E de uma série de políticos do PMDB ligados ao Palácio do Planalto. Teve Anthony Garotinho, sua mulher Rosinha, deputados da Assembléia Legislativa do Rio... Mas a prisão mais emblemática foi mesmo a do ex-prefeito de São Paulo e deputado federal Paulo Maluf. Depois de mais de duas décadas de processo travado por dezenas de recursos, Maluf teve a prisão decretada pelo Supremo por crimes cometidos ainda na prefeitura. O ministro Edson Fachin determinou que o político famoso pelo bordão “rouba, mas faz”, fosse mandado pra trás das grades, em uma sela especial para idosos na penitenciária da Papuda.

Não bastasse a Câmara, o Tribunal Superior Eleitoral deu um jeito de esticar a corda bamba para que Temer não caísse. Em junho, o TSE absolveu a chapa Dilma-Temer, acusada de abuso de poder econômico nas eleições de 2014. Por 4 votos a 3, acabou inocentada, num voto decisivo de ninguém mais, ninguém menos que o presidente da Corte, ministro Gilmar Mendes.

Gilmar, inclusive, caiu nas graças de figurões presos, mas não na do povo. Tem sido responsáveis pela soltura de diversos investigados da Lava Jato e outras operações policiais envolvendo políticos e empresários. Já decretou a soltura dos ex-prefeitos de Campos, no Rio, Rosinha Matheus e Antony Garotinho; da mulher do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, Adriana Anselmo; do ex-ministro dos Transportes e presidente do PR, Antônio Carlos Rodrigues, do empresário Eike Batista, de empresários da máfia do transporte no Rio... uma lista extensa.

Já polarização política de 2016, em que um muro imaginário dividiu o Brasil entre vermelhos e azuis, foi tratorada em 2017 quando lideranças de todos os lados e partidos foram pegas com a boca na botija em esquemas nada, nada republicanos.

Foi o ano em que o ex-ministro de Lula e ex-ministro do governo Temer, Geddel Vieira Lima, foi surpreendido escondendo R$ 51 milhões em um apartamento alugado em Salvador. A quantia é tão megalomaníaca que parece tirada de um enredo de filme. Era tanto dinheiro que foram preciso 14 horas para contá-lo. Isso tudo com a ajuda de máquinas.

Deu ruim também para o senador pelo PSDB de Minas Aécio Neves. O mineiro, cotado mais uma vez para disputar as eleições presidenciais caiu no meio do caminho ao ser denunciado por receber propina de R$ 2 milhões de executivos da JBS. Sua irmã, braço direito e articuladora de sua carreira política, Andrea Neves, foi presa, assim como um primo do senador. Aécio esteve a um passo de perder o mandato, mas o corporativismo dos seus colegas de parlamento o salvou. Em 17 de outubro o Senado decidiu manter Aécio na cadeira de senador.

E, por fim, as decepções políticas na vida dos brasileiros foram estampadas no primeiro e único discurso do deputado Tiririca na tribuna da Câmara. Quando se candidatou pela primeira vez, em 2009, dizia que o Congresso “pior do que tá, não fica”. Enganou-se. E se arrependeu. Terceiro deputado mais votado da história da Câmara, Tiririca disse que abandonará a vida pública no final de 2018. Aos colegas, pediu que esquecessem as brigas e o ego e olhassem mais para o país. O pedido do povo na voz do decepcionado palhaço parlamentar.

De Brasília, Hédio Júnior
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