Recuperados da Covid-19 voltam a apresentar sintomas meses após a confirmação

Recuperados da Covid-19 voltam a apresentar sintomas meses após a confirmação


O número de pessoas recuperadas da Covid-19 no Ceará já ultrapassa a marca de 95 mil, considerando casos confirmados em testes, de acordo com dados do IntegraSUS, da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa). Contudo, mesmo após superar os quadros médios ou graves da nova virose, muitos pacientes continuam ou voltam a apresentar sintomas, reacendendo a preocupação.

Pouco mais de um mês após ser diagnosticada com o novo coronavírus, Keila de Lima, 39, atendente de uma clínica de fisioterapia, ainda sente a presença da doença. Em maio, quando os sintomas típicos começaram, ela recorreu a uma consulta médica para averiguar o caso e testou positivo para a Covid-19. Já em julho, o cansaço e a tosse ainda são persistentes no cotidiano. “Comecei sentindo dor de cabeça, tive três dias de febre muito alta, suando muito, além de diarreia e vômitos. Logo procurei um médico, que me recomendou fazer o exame”, diz. Para o diagnóstico, Keila fez o teste RT-PCR.

A atendente permaneceu em quarentena e tratamento durante 15 dias e, depois, retornou ao trabalho. O problema é que, ainda hoje, convive com os sinais da doença. “Não tenho a disposição que tinha antes, me canso muito rápido. Atividades básicas, como varrer a casa e passar pano: não consigo mais fazê-las como antes. A tosse aparece só em alguns momentos, quando ando muito e canso”, lamenta. 

Conforme o boletim da Secretaria da Saúde do Ceará, de 1º de julho, 75,5% pacientes hospitalizados por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG, principal quadro de Covid-19) no Estado apresentaram falta de ar como sintoma. Outras das principais manifestações verificadas em pessoas infectadas pelo novo coronavírus são febre (74,4%), tosse (74,4%), desconforto respiratório (52,2%) e queda da saturação de oxigênio (50,9%).

A infectologista Melissa Medeiros, que atua no Hospital São José (HSJ) e coordena o Ambulatório de Infectologia do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), tem acompanhado casos de pacientes com sintomas persistentes. Ela explica que “quem tem sintomas leves demais pode persistir com vírus ou restos virais por mais tempo, o que pode gerar um processo de inflamação crônica”. Ela compara a situação à que aconteceu na epidemia de chikungunya no Ceará, quando pessoas acometidas pela arbovirose sentiram fortes dores nas articulações por longos períodos.

A médica reforça, no entanto, que não se trata de uma nova infecção pelo coronavírus, mas, sim, de processos inflamatórios causados por resquícios do micro-organismo em órgãos como o pulmão, devido ao fato de não existir nenhum antiviral efetivo contra o Sars-CoV-2.

Keny Colares, também infectologista do HSJ, confirma que “cerca de 40% dos indivíduos continuam tendo sintomas por períodos bem prolongados, principalmente no pulmão, no período que se segue à fase aguda”, mas afirma que “pelo fato de essa ‘realidade pós-Covid’ ser muito nova, ainda é uma grande interrogação”.

Em nota, a Sesa, por meio da Escola de Saúde Pública (ESP/CE), confirma que “está em processo de elaboração do protocolo específico de reabilitação pulmonar, que deve ser utilizado para lidar com pacientes recuperados da Covid-19, mas que permanecem apresentando alguns sintomas”. O documento deve ser publicado nas próximas duas semanas. Diante da persistência dos sintomas, a médica Melissa Medeiros afirma que deve ser feito um acompanhamento médico, e que o recomendado é refazer exames. 

Diário do Nordeste