Há 122 anos, Santa Quitéria enfrentava sua primeira epidemia

Há 122 anos, Santa Quitéria enfrentava sua primeira epidemia


Santa Quitéria chega ao final de fevereiro de 2021, enfrentando um dos momentos mais críticos da história na saúde de sua população, com a pandemia do coronavírus: aumento de infecções, internações em leitos de enfermaria e UTI, bem como crescimento no número de mortes. Mas o histórico de doenças e comorbidades dos quiterienses já vem de longe, na verdade, de séculos passados.

De acordo com o historiador Jardson Rodrigues, a primeira epidemia registrada no município, a época, Vila de Santa Quitéria, se deu entre 1899 e 1906, sob o paroquiato do padre Antonio Tabosa Braga (Monsenhor Tabosa). A comunidade sofreu o maior surto de doenças desde 1865, quando a cidade relatou os primeiros casos de cólera por ali. Dentre as enfermidades, estavam a febre amarela, febre tifoide e varíola, deixando um saldo de 15 mortos na Vila, 01 morte na Barra do Macaco (atual Macaraú) e 01 morte em Cajazeiras (atual Hidrolândia).

De acordo com o coletor de impostos Thomaz Aquino, que morava em Santa Quitéria na época, "a população da Vila era de cerca de 700 pessoas quase todas pobres [...] A população menos favorecida da fortuna é inteiramente indolente, alimentando-se, quase que exclusivamente, a custa dos mais abastados."

Na época, Padre Tabosa mantinha em Santa Quitéria o Colégio São Luiz, localizado na Praça da Matriz (Praça de Baixo). A escola do Padre Tabosa, como era chamada, chegou a ter matriculados 71 alunos que vinham de diversas partes, grande maioria de Sobral. Em 1903, quando o pico da doença atingiu seu ápice, o sacerdote teve que isolar 40 alunos em uma fazenda nas proximidades de Santa Quitéria. Passou então a ministrar as aulas naquele local, pois acreditava que a doença pudesse ser transmitida pelo ar. 

Os estudantes sobreviveram a doença, porém muitos pais, que eram de outras cidades, retiraram os filhos de Santa Quitéria. Em 1906, quando já não pode mais lutar contra a doença, Padre Tabosa relatou o seguinte: "aumentei o cemitério sem auxílio de um poder público" e criou uma ala para enterrar apenas as vítimas que graçavam morte pela doença na Vila. O Colégio São Luiz foi então fechado e o padre deixou a cidade em direção à cidade de Pacoti, juntamente com uma comitiva de quiterienses, sendo um possível membro Francisco Menezes Pimentel que fora educado por ele no Colégio São Luiz e levado para Fortaleza e, anos mais tarde, Pimentel se tornaria Interventor do Ceará.

A varíola, febre amarela e muitas outras doenças só foram erradicadas no Brasil na segunda metade do século XX, graças as inúmeras campanhas de vacinação. Pouco se sabe sobre a primeira epidemia em Santa Quitéria ainda, mas de uma coisa é certa, o isolamento social não foi inventado hoje e já salvou muita gente por aí.