Eleição 2022: volta de Lula é boa notícia para petistas ou bolsonaristas?

Eleição 2022: volta de Lula é boa notícia para petistas ou bolsonaristas?


Prever o que acontecerá na disputa à presidência em 2022 é uma aposta arriscada, mas quem se propõe a olhar para este cenário vê a partir desta segunda-feira (8) um jogo muito diferente do que se via até domingo.

Ontem, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Edson Fachin decidiu anular todas as condenações judiciais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no âmbito da Operação Lava Jato, abrindo caminho para que o petista concorra à presidência caso não sofra novamente condenações em segunda instância.

Para cientistas políticos entrevistados pela BBC News Brasil, a provável entrada de Lula no jogo eleitoral traz hoje implicações para pretendentes ao Planalto que apostavam em se colocar no centro do espectro ideológico e, claro, para o projeto de reeleição do atual presidente.

"Bolsonaro não tinha um adversário materializado: Doria estava tentando se colocar como alternativa (João Doria, PSDB, governador de São Paulo), o Mandetta apareceu (Luiz Henrique Mandetta, DEM, ex-ministro da Saúde), Ciro estava tentando se viabilizar (Ciro Gomes, PDT, candidato à presidência em 2018). Eram balões de ensaio, e Haddad era uma incerteza (Fernando Haddad, candidato do PT em 2018)", lembra o cientista político Carlos Melo, professor do Insper.

Na avaliação do cientista político, trata-se "do pior momento para Bolsonaro ganhar um adversário do tamanho do Lula", por uma combinação de acusações contra o governo na economia e no controle da pandemia, e contra Bolsonaro e sua família em denúncias de corrupção.

"Toda vez que acusarem o PT de corrupção, vão falar da mansão do filho (Flávio Bolsonaro, que comprou recentemente uma casa milionária em Brasília). Toda vez que falarem da intervenção dos governos petistas nas estatais, vão falar da intervenção de Bolsonaro na Petrobras. Bolsonaro não tem muito a apresentar em sua defesa."

A força do antipetismo
Entretanto, há quem acredite que Bolsonaro até "queria" Lula na disputa, como afirma o cientista político Alberto Carlos Almeida, diretor do Instituto Brasilis. "Hoje Bolsonaro tem uma minoria de apoiadores, e vai querer chegar a uma maioria (apostando) no sentimento antipetista", resume Almeida, autor dos livros "A cabeça do brasileiro", "A cabeça do eleitor" e "O voto do Brasileiro".

Nesta avaliação, está embutida a hipótese de que Bolsonaro e Lula chegariam ao segundo turno — o que Almeida diz ser o mais provável. "Bolsonaro é o presidente, e o presidente vai para o segundo turno, por regra, no Brasil e em outros países que têm reeleição. E desde 1989 o PT é um dos dois partidos mais votados. Lula é forte, se elegeu duas vezes, elegeu sucessora. Um é forte por estar na presidência, o outro por seu histórico", diz o cientista político.

Também considerando um cenário de segundo turno, a cientista política Lara Mesquita diz que Lula pode ser "o melhor oponente possível para Bolsonaro". "Talvez ele seja um candidato melhor para o presidente no segundo turno, porque é mais difícil para eleitores do centro-direita votarem no Lula. Alguns eleitores que têm sentimentos antipetistas e que poderiam considerar votar em outro candidato do PT ficam mais longe do partido com o nome do ex-presidente", avalia Mesquita, pesquisadora do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getulio Vargas (FGV-Cepesp).

Outros candidatos 'coadjuvantes'
Enquanto Melo considera a possibilidade de algum "outsider" (novato na disputa à presidência) chegar ao segundo turno e com isso levar vantagem, Alberto Carlos Almeida diz que "sem dúvida" a segunda-feira, dia 8, trouxe "uma péssima notícia para todos os demais candidatos que não sejam Lula e Bolsonaro". "Eles podem vir como candidatos, mas já estão contratados como meros coadjuvantes", resume Almeida.

"Lula é líder da esquerda, é popular; e Bolsonaro é um líder da direita, também popular. Os dois mobilizam vínculos emocionais. Com Fernando Henrique, Dilma, a escolha (do eleitorado) era mais racional ? relevante, sim, mas racional. Agora, Bolsonaro e Lula mobilizam justificativas racionais e vínculos emocionais."

BBC Brasil