"O Santa Quitéria Velha vai arrombar": conheça a história de um dos maiores açudes do nosso município

"O Santa Quitéria Velha vai arrombar": conheça a história de um dos maiores açudes do nosso município


Jardson Rodrigues
, professor e licenciado em História

Quem cresceu na sede do munícipio de Santa Quitéria-CE já deve ter ouvido essa famosa frase sendo gritada por algum morador mais velho, ou até mesmo, pelos mais jovens que a repetem ao ver uma forte chuva se aproximar da cidadezinha. Mas você sabe de onde nasceu essa famosa frase do período invernoso quiteriense e que continua no imaginário popular?

Santa Quitéria Velha é o nome popular do açude Caboclinho, localizado na Fazenda Santa Quitéria, uma das mais antigas fazendas do munícipio quiteriense, construída no início do século XIX, serviu de residência para a família do Coronel Vicente Alves da Fonseca e posteriormente teve diversos proprietários. Suas terras são cortadas pelo Riacho Salgado que desagua no Rio Jacurutu, este por sua vez, corta a sede do munícipio.

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No dia 23 de outubro de 1947, o Fazendeiro Francisco Martins (Sr. Martins), concluiu as obras do açude, uma obra gigantesca, até então um dos maiores açudes da região.

O fato é que em 1961, cerca de 60 anos atrás, a cidade de Santa Quitéria passava por um dos invernos mais rigorosos dos últimos tempos, concentrando grande volume de chuvas no mês de abril, o que provocou fortes cheias no Riacho Salgado, assim a capacidade que era aproximadamente de 4 milhões de metros cúbicos de água no açude Santa Quitéria Velha (Caboclinho) passou rapidamente para quase 5 milhões de metros cúbicos, de acordo com reportagens da época, fazendo que o açude começasse a sangrar. E para onde ia toda essa água? O sangradouro do açude foi projetado para desembocar no Rio Jacurutu, este por sua vez, segue cortando para a sede do munícipio.

Em Santa Quitéria, poucos dias antes a situação se agravava ainda mais com a notícia de que outros açudes estavam arrombando dentro do território, como relatou o comerciante Gonzaga Mesquita em seu diário: 

[...] o açude S. Francisco de propriedade de Haroldo Martins, rombou na noite do dia 9 de abril 1961 segunda-feira.

Apesar de que o açude São Francisco desaguava para o Rio Groaíras, bem distante do Jacurutu, a notícia gerava preocupação entre na população. Com medo das enchentes a população passou a sair de suas casas e ir para outras residências em locais mais altos, cogitava-se inclusive uma evacuação da cidade, de acordo com o Jornal Gazeta de Notícias, que noticiou os fatos ocorridos na cidade em duas reportagens entre os dias 12 e 14 de abril de 1961.


O Jacurutu já estava cheio com as fortes enchentes de alguns riachos como o Piaú e outras pequenas grotas que desembocavam dentro do rio, quando recebeu o grande volume da sangria do Santa Quitéria Velha. Consequência, uma terrível enchente entre os dias 12 e 13 de abril de 1961 alaga a cidade, deixando diversas casas no antigo bairro do Alvaiade (atualmente parte das Ruas: Napoleão Camelo e Coronel Antonio Ernesto – ‘Rua do Papoco’ no Centro) e outras áreas nas imediações do rio, alagadas e destruídas.

As pessoas ficaram desabrigadas e as autoridades municipais passaram a pedir socorros das cidades vizinhas, como Sobral. O Deputado Melo Arruda tentava mediar a situação junto ao DNOCS e ao Governador Parsifal Barroso, medidas que demoravam a chegar para conter a catástrofe. Mas, o pior ainda estava por vir! O açude Santa Quitéria Velha ( Caboclinho) não parava de receber água, a vazão só aumentava! O risco de um arrombamento era eminente, pois a quantidade de água que se concentrava na parede representava um risco e alguns formigueiros deterioravam a construção. O povo começou a abandonar suas casas e buscar abrigo em residências localizadas em áreas mais altas, outros se abrigaram em residências da rua de baixo, como ainda relatam alguns moradores da época. Uma leva de homens passaram a trabalhar conjuntamente com picaretas, enxadas e um trator do grupo de socorros que chegava de Sobral, a ideia era rebaixar a parede do açude para que a água pudesse escorrer rapidamente e assim evitar o arrombamento do reservatório.

Em uma das noites ocorreu uma forte chuva e alguns moradores relataram um estrondo, o medo para alguns é que poderia ter sido o Santa Quitéria Velha ( Caboclinho) que teria arrombado, crescendo o temor da população. Daí acreditasse que tenha nascido o famoso dizer popular: “É hoje que o Santa Quitéria Velha arromba!”

Os homens continuaram a trabalhar na parede do açude, o que funcionou. Nos dias que seguiram a grande enchente as chuvas amenizaram e o volume de água despejado no Rio Jacurutu passou a baixar deixando um vasto de destruição em algumas áreas próximas ao rio e famílias desabrigadas.

Confira vídeo do açude, feito por Fernando Magalhães