Pronomes neutros ganham espaço nas campanhas em Santa Quitéria; você sabe o que é?

Pronomes neutros ganham espaço nas campanhas em Santa Quitéria; você sabe o que é?


“Vacina para todes”. A frase que compõe a campanha de vacinação do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Santa Quitéria pode ter provocado um certo desentendimento para quem lê, mas ao contrário do que se pensa, a sentença não está errada, ela defende a vacina e é alinhada com a questão do gênero neutro. 

Em meio as discussões mais recentes na internet, pode-se citar a utilização do pronome neutro dentro da língua portuguesa. Ou seja, a proposta de uma terceira forma que vá além do "A" para o gênero feminino e do "O" para o gênero masculino. O debate sobre o tema é extenso e complexo. Mas afinal do que se trata a neutralização dos pronomes e quais são as barreiras para sua inclusão?

A utilização do pronome neutro busca criar uma terceira opção para os pronomes, além do feminino e o masculino, exercendo um papel fundamental na luta das pessoas que não se identificam com nenhum dos gêneros - pessoas não binárias - que se sentem invisibilizadas pela atual forma que os pronomes se apresentam na nossa língua. 

Em meios as tentativas de se ter uma inclusão na língua portuguesa, foram utilizados inicialmente o “x” no lugar do “o” e do “a” nos pronomes, entretanto usar o “x” causa exclusão a pessoas com deficiência visual e também houve a dificuldade em trazer esse método para fora da internet, já que não havia uma pronúncia que se adequasse à escrita. 

A partir daí outras formas de incluir o pronome neutro foram sendo disseminadas, como utilizando o “e” no final de palavras terminadas em “o” ou “a”, como por exemplo: “amigue”; conhecide” e “apaixonade”, entretanto a solução para substituir o ele ou ela, foi “elu”, que é forma mais utilizada atualmente nas redes sociais.  

De acordo com a professora, linguista e especialista em História das Ideias Linguísticas e Análise do Discurso, Isadora Machado, a língua está em processo de mudança 24h por dia, por isso, transformações sempre são bem-vindas. 

"Dizemos em Linguística que a língua é variação contínua, porque ela nunca para se modificar. Só que não percebemos essas micro-mudanças, assim como não percebemos que a Terra está girando e mudando de lugar. Nós percebemos que algo está mudando quando, por exemplo, uma professora escreve "todes" e na semana seguinte uma vereadora diz 'todes'", defende. 

Mas o que é uma pessoa não-binária?
Apesar de constantes discussões e polêmicas, é crescente a camada da sociedade que reconhece a existência de indivíduos que não se identificam com nenhum dos gêneros já apresentados. 

A chamada comunidade não-binárias inclui todos aqueles que não se enquadram em um dos dois gêneros pré-definidos.  O gênero não deve ser confundido com sexualidade, e muito menos com a genitália de cada um: é muito mais sobre a forma como o indivíduo se enxerga no mundo, como se porta e deseja ser tratado.  

Alguns não-binários, inclusive, comparam a não-binariedade à escala de cores: na mesma lógica de que de uma cor para outra há uma infinidade de tons, do gênero masculino ao feminino, também. 

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“Nós vivemos uma sociedade que temos uma grande diversidade cultural. O Brasil é um país de dimensões continentais e temos pessoas diversas. O “todes” é um pronome neutro que envolve todos os gêneros e não precisa fazer um card colocando “vacina para todos”, porque só fortalece um modelo de sociedade patriarcal que nós vivenciamos há séculos”, afirma Germana Aragão, Presidenta do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Santa Quitéria.

A Língua Portuguesa é machista? 
Um dos principais pontos envolvidos na discussão da linguagem neutra, é o uso linguístico do masculino genérico para expressar um gênero não marcado, ou seja, neutro, que inclui tanto homens quanto mulheres. Os falantes de português, por exemplo, ao ouvirem ou lerem uma frase no gênero masculino sabem que todos os indivíduos estão contemplados.

Quando a língua portuguesa derivou do latim, que previa três definições de gênero: masculino, feminino e neutro, houve uma fusão entre masculino e neutro por causa de algumas semelhanças de estruturas morfossintáticas. 

A gramática conservadora, conhecida como a norma culta da língua, entende que não é necessário distinguir os gêneros de determinado grupo quando há a presença de homens e mulheres. Utilizar, portanto, “Os alunos e as alunas foram ao parque” seria um pleonasmo. Isto é, ao utilizar o gênero masculino em “alunos”, já está implícita a possibilidade de terem somente estudantes do sexo masculino, quanto a de terem meninos e meninas. 

Problemáticas da linguagem neutra 
Contudo é difícil aplicar de forma simples o pronome neutro em nosso idioma, muitas são as problemáticas que envolvem esta mutação da língua portuguesa. Sabemos que qualquer modificação no idioma leva um tempo longo para adaptação, a exemplo da reforma ortográfica de 2009, que busca unificar a linguagem dos oito países que utilizam o português, a reforma não foi extensa e ainda assim, gerou confusão, logo previsível que haja divergências a uma mudança tão drástica nos pronomes.  

Outra grande polêmica sobre o tema é como sair da ortografia e aplicar o pronome neutro no cotidiano de comunicação de todas as camadas sociais, principalmente aquelas que não têm acesso às redes onde o pronome neutro é utilizado com mais frequência. 

A busca pela inclusão dos pronomes vai da internet até o meio acadêmico no qual as opiniões também divergem, já que alguns creem que a língua portuguesa já é neutra e não precisa de uma mutação e outros que apostam que uma reforma gradual é a melhor forma de incluir todos em nosso idioma. 

Por fim, Germana reforça que o pronome neutro utilizado nas redes sociais dos servidores de Santa Quitéria engloba “todas as diferenças, não só de gêneros, mas todas que existem entre as pessoas que constituem nosso país”, finalizou. 

Com informações de Guia do Estudante e Facha Em Todo Lugar