Facção cobrava "imposto" de moradores do Minha Casa, Minha Vida, no Ceará

Facção cobrava "imposto" de moradores do Minha Casa, Minha Vida, no Ceará


Mensagens encontradas no celular de uma integrante da facção criminosa Comando Vermelho (CV) indicam que os criminosos da organização extorquem moradores, chegando a se apoderar legalmente de empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida (MCMV). É o que consta em denúncia ofertada, nessa terça-feira, 13, pelo Ministério Público do Estado (MPCE) contra 12 pessoas acusadas de integrar a facção. A Justiça ainda decidirá se recebe ou não a acusação.

A denúncia é mais um resultado das extração de dados do celular de Almerinda Marla Barbosa de Sousa, conhecida como Irmã Ruiva, presa em novembro último, suspeita de ser "conselheira de guerra" do CV. No aparelho, a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) encontrou uma conversa entre Almerinda e Maria Capelinne Martins Rodrigues, de 30 anos, apontada como uma das "frentes" do CV no Residencial Almir Pinto, conhecido como Condomínio da Santa, no bairro Outra Banda, em Maranguape (Região Metropolitana de Fortaleza). As duas teriam uma "forte ligação", segundo a investigação.

Conforme o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), que ofertou a denúncia, a Draco constatou que membros do Comando Vermelho cobram uma espécie de "imposto" de moradores de áreas com atuação da facção que financiem casas do MCMV. Haveria ainda a entrega do título da propriedade a pessoas indicadas pela organização criminosa. "Em síntese, somente é autorizado a residir naquela localidade o morador que esteja cumprindo com o pagamento do 'imposto' cobrado pela organização criminosa", diz a denúncia. O MPCE afirma que Maria Capelinne era uma das "facilitadoras" do esquema. Seria através dela que os faccionados recolheriam as cobranças impostas aos moradores.

Nas mensagens analisadas pela Draco, Almerinda aparece encaminhando uma mensagem de um "conselheiro permanente" do CV, em que ele faria um "chamado" a todos os "frentes" do condomínio. "Esses condomínios aí é os que tu é frente, é? Me diz, aí do Maranguape, porque o pessoal diz que já deu entrada lá, tá precisando só dos frentes para ganhar o papel", diz, em áudio, Almerinda. "Eu vou passar o teu contato para ele, aí ele te explica bem direitinho, tu vê com ele, viu? É dinheiro, amore! É milhão que ele disse, que vão ganhar. Não sei como ele está fazendo, eu sei que ele está desenrolando essas paradas aí", diz outros mensagens. Em seguida, Maria Capelinne responde que "deu certo falar com o pessoal". "Show, amore", responde Almerinda. "Vamos ganha esse milhão".

Em depoimento em um inquérito de um homicídio ocorrido em 2018, Maria Capelinne confirmou que era uma síndica informal do Condomínio da Santa, sendo responsável pela arrecadação de valores de gastos comuns do residencial, como água e limpeza. O MPCE ainda cita que o condomínio da Santa já foi alvo de diversas operações policiais, como uma ocorrida em maio de 2018, em que foram apreendidos fuzil, submetralhadora e revólver.

Maria Capelinne é companheira de Genilson Morais Gaspar, conhecido como BO, que possui passagens na Polícia por homicídios, ameaças, porte ilegal de arma de fogo e tráfico de drogas. Além dela, foram acusados Antônio Wesley Caetano de Souza, o General; Daniel da Costa Leandro, o Babu; David Barbosa Teodorio, o PK ou Pequeno; Everton Luiz de Sousa Barbosa, que é filho de Almerinda; Francisco José de Negreiro Lopes, o CH; José Alderi de Menezes, o Deca; José Divandir Marques, o Coroa; Lucas Almeida Santana; Maria Luciana Braz da Silva, a Duquesa; Rener Castro de Souza; e Rosilane Barbosa da Silva, a Diamante.

Foi pedida a prisão dos acusados e, em 2 de junho último, General e Rosilane foram presos; Duquesa já havia sido presa em maio. "No tocante aos demais, em que pese os esforços despendidos pelos agentes da Draco não fora possível, até o momento, captura-los", informa a denúncia.

O Povo Online