Policial militar suspeito de matar jovem dentro de delegacia é afastado das funções no Ceará

 

O policial militar George Tarick de Vasconcelos Ferreira, de 33 anos, suspeito de matar um jovem dentro de uma delegacia em Camocim, no interior do Ceará, foi afastado preventivamente das funções, conforme decisão da Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública (CGD) publicada no Diário Oficial do Estado (DOE) desta quarta-feira (9).

O jovem Mateus Silva Cruz, de 19 anos, foi morto dentro da Delegacia de Polícia Civil de Camocim, no litoral do Ceará, na madrugada deste domingo (6). Os dois haviam sido levados à delegacia após uma discussão. O agente disse ter assassinado o jovem "em um momento de fúria, levado por violenta emoção". A Polícia Civil já o indiciou por homicídio qualificado.

O policial vai ficar 120 dias afastado e um processo administrativo disciplinar vai ser instaurado contra ele. "[...] em virtude da prática de ato incompatível com a função pública, gerando clamor público, tornando o afastamento necessário à garantia da ordem pública, à instrução regular do processo, assim como a correta aplicação da sanção disciplinar", diz o texto do DOE.

Perseguição antes do homicídio

Câmeras de segurança de pontos comerciais de Camocim, no litoral do Ceará, registraram o momento em que Matheus Silva Cruz foi perseguido por policiais, dentre eles, o que o matou. 

Nas imagens, Matheus aparece correndo, fugindo do policial que atiraria contra ele momentos depois. A perseguição começou logo após os dois discutirem no estacionamento de uma boate.

As imagens também mostram o momento em que Matheus chega próximo a uma praça e é imobilizado pelo suspeito do crime. Em seguida, ele é levado para um carro da Polícia Militar. De lá, Matheus foi conduzido para a delegacia da cidade.

Matheus foi enterrado na manhã desta segunda-feira (7), em meio ao protesto de amigos e familiares, que cobram justiça pelo crime.

Durante o cortejo do corpo para o cemitério, dezenas de pessoas se reuniram nas ruas da cidade, com cartazes "Justiça por Matheus", além de homenagens. Durante o momento, várias pessoas choravam, enquanto cantavam músicas religiosas.

Para a família do jovem, além do PM que fez os disparos, outras pessoas devem ser responsabilizadas pelo crime, pois Matheus estava sob a custódia da Polícia Civil quando foi atacado. O pai do jovem, o comerciante Eglício de Souza Cruz, relatou ao g1 que a vítima estava algemada e machucada após ter sido agredida em uma boate da região, mas a Polícia Militar nega a versão.

Discussão em festa

A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) afirma que o inquérito policial que investiga as circunstâncias da morte de Matheus, ocorrida dentro de uma repartição pública, será remetido à Delegacia de Assuntos Internos (DAI), vinculada à Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD).

Conforme o órgão, a vítima do homicídio e o militar suspeito teriam se desentendido em um estabelecimento comercial. Eles foram conduzidos para a Delegacia Regional de Camocim. No local, enquanto aguardavam o procedimento, o militar atirou contra o homem que não resistiu aos ferimentos e morreu.

O policial militar, que estava de folga, foi preso e autuado em flagrante pela Polícia Civil, além disso teve a arma apreendida. Ele foi "colocado à disposição da Justiça e permanece preso no Presídio Militar".

"A SSPDS reitera que não compactua com desvios de conduta de seus agentes e determinou a apuração imediata dos fatos para possível responsabilização de policiais militares e civis envolvidos na ocorrência. A pasta informa ainda que a própria CGD também conduz investigações paralelas sobre o assunto", diz um trecho da nota.

'Momento de fúria'

O militar disse em depoimento ter atirado contra o jovem "em um momento de fúria, levado por violenta emoção".

"Essa pessoa que matou o Matheus já se encontra presa e, por mim, passa o resto da vida dele preso lá. Não justifica ele ter matado o meu filho, meu filho era o meu amor, minha tela preciosa, eu amava muito o meu filho, não precisava ele ter matado o meu filho", disse o comerciante Eglício de Souza Cruz.

Mateus trabalhava no pet shop do pai, na cidade de Camocim, como tosador e entregador. Segundo a família, o jovem não tinha antecedentes criminais.

"Estamos arrasados, e a gente quer justiça com esse policial e também com os outros que estavam juntos com ele [o suspeito], não só esse que matou ele, mas outros que bateram nele também", afirmou o pai.

Pai soube da morte por amigo

O jovem e o policial tiveram uma discussão em uma festa que ocorria na Praia de Camocim. O pai disse que, por volta de 2h, recebeu uma ligação da namorada de Matheus, informando que ele estava sendo espancado por PMs na orla da cidade. O homem encontrou o filho detido no carro de polícia ensanguentado e vomitando, conforme relatou ao g1.

O comerciante contou que os policiais que atenderam a ocorrência disseram que iriam levar Mateus para o hospital e, em seguida, para a delegacia. Ele se encaminhou à unidade hospitalar, mas a polícia não foi ao local. Então, ele foi à delegacia quando se deparou com uma grande quantidade de pessoas do lado de fora.

"Quando chego lá, já tá cheio de policial e não deixaram eu entrar. Aí eu perguntei o que foi que aconteceu, todo mundo ficou calado e não falou nada. O Matheus foi preso com outro colega dele, o Isac. O pai do Isac chegou e falou pra mim 'mataram o teu filho aí'. Eu fiquei perguntando pros policiais o que tinha acontecido e eles não falaram nada", conta Eglício.

O relato do amigo de Eglício se confirmou. "A gente tá muito triste com um ato cruel, eles carregaram 15 munições no meu filho, dentro da Civil, algemado. E a gente tá muito triste, o meu filho, eu amava ele, era o meu filho do coração. A gente morava junto, só tinha 19 anos de idade, tiraram ele, arrancaram um pedaço de mim", diz.

G1 CE

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